sexta-feira, 25 de março de 2016

Subindo um "seis mil" em um feriadão: escalada do Huayna Potosí (2010)


Texto por: Marcelo Delvaux

Relato da escalada realizada em junho de 2010.


 A idéia de subir o Huayna Potosi (6088 m) em um feriado surgiu em tom de brincadeira em uma conversa em uma academia de escalada, logo após a ascensão ao cerro Mercedario, na Argentina. Como eu havia feito o cume desta montanha de 6770 m em apenas quatro dias, alguém comentou que, desse jeito, em breve eu estaria fazendo “seis mil” nos finais de semana. Fim de semana não dá, pensei rindo, mas num feriadão partindo do Brasil até que não seria algo tão impossível. Mentalmente, naquele momento, comecei a esboçar um roteiro para uma hipotética montanha de 6000 m, tendo como referência minha performance no Mercedario: em pouco mais de 48 horas eu havia estabelecido meu acampamento avançado a 5200 m. Isso, teoricamente, me habilitaria a fazer o mesmo em um feriado de quatro dias. Teria mais dois dias para atacar o cume, descer da montanha e pegar o voo de volta. Mas qual montanha seria essa? Teria que ser alguma montanha bem acessível e de fácil logística, pois não teria tempo para grandes deslocamentos.

La Paz me veio, então, imediatamente à cabeça. Situada a 3600 m de altitude, minha aclimatação poderia começar na própria cidade. O Huayna Potosí, com 6088 m, acabou sendo o eleito: além de ser um “seis mil”, tornando o desafio mais emblemático, sua base fica a menos de 2 horas de carro do centro de La Paz. Outra vantagem seria a presença de refúgios nas cotas aproximadas de 4700 m e 5100 m, me poupando o transporte de toda a estrutura de acampamento, o que me permitiria uma rápida retirada da montanha. Afinal de contas, teria que pegar um avião algumas horas após o retorno do ataque ao cume.

As primeiras dificuldades começaram antes mesmo de chegar a La Paz. Cheguei em Santa Cruz de la Sierra por volta de 2 horas da madrugada de uma quinta-feira. No dia seguinte eu teria um voo para La Paz às 14:30 e já estava preparado para evitar o imprevisto acontecido no ano anterior, quando também havia ido à Bolívia. Santa Cruz de la Sierra tem dois aeroportos, um internacional, chamado Viru Viru, e outro doméstico. Em 2009 eu tinha um voo para La Paz marcado para sair de Viru Viru. Quando cheguei neste aeroporto, para minha surpresa, o voo havia sido alterado para o aeroporto doméstico. Por muito pouco não perdi o voo. Desta vez, pensei, não serei surpreendido, e confirmei pela manhã no site da Aerosur que o voo sairia do aeroporto doméstico, mesma informação que constava em minha passagem. Ainda bem que eu cheguei com umas 2 horas de antecedência no aeroporto, pois, além da Aerosur ter, mais uma vez, trocado o local de partida do voo, o mesmo foi antecipado em 1 hora, acreditem se quiser. Novamente, tive que contar com os préstimos de um taxista “voador” para me levar até Viru Viru. Lá chegando, descobri que o voo acabava de ser encerrado. Mostrei, indignado, meu bilhete ao atendente que não teve como negar meu embarque. Mais um obstáculo vencido! Parece piada, mas quase que minha escalada se encerrou em Santa Cruz de la Sierra.

A quinta-feira de Corpus Christi também era feriado na Bolívia. Isso significava que quase tudo estava fechado, inclusive a agência que opera os refúgios no Huayna Potosi. Aproveitei o dia para comprar algumas “cositas” para comer na montanha e dar umas voltas por La Paz. Esta é uma cidade em que eu já me sinto à vontade, depois de vários anos consecutivos de viagens para a Bolívia. E é o tipo de lugar que demonstra, claramente, como a percepção da realidade não é algo direto e objetivo. Para aqueles acostumados, e seduzidos, pelo glamour tecnológico das cidades modernas ocidentais, La Paz deve parecer um lugar insuportável: não identificando os sinais associados à “modernidade” por quem carrega este tipo de “pré-conceito”, a percepção da realidade estará condicionada a enxergar somente sujeira, pobreza e subdesenvolvimento. Não há como negar que a Bolívia é um país pobre. Mas pobre do ponto de vista econômico. Para aqueles que não possuem um olhar limitado por tais condicionamentos, a Bolívia de um modo geral, e La Paz em particular, é um mundo à parte, repleto de surpresas. Passear por La Paz implica no contato com uma cultura diferente, herdeira de tradições ancestrais pré-colombianas cujos sinais estão em todos os lugares, sobrepondo-se aos modismos do mundo moderno. As características físicas da cidade também impressionam. Encaixada em um vale entre o altiplano e a Cordilheira Real, com o imponente Illimani ao fundo, La Paz ganha ares exóticos, principalmente à noite, com milhares e milhares de luzes vindas das montanhas ao redor. Grandes “favelões” diriam, certamente, aqueles que carregam em sua bagagem conceitual os valores urbanísticos supostamente modernos, incapazes de compreender os princípios do relativismo cultural. Um mundo à parte, eu diria, nem melhor ou pior, apenas diferente. À noite no hotel monitorei meu nível de oxigênio, que estava em torno de 92%, com os batimentos cardíacos por volta de 60 por minuto. Fui dormi tranquilo, minhas condições no primeiro dia na altitude estavam excelentes.

Na sexta-feira pela manhã fui até a agência confirmar minha reserva nos refúgios do Huayna Potosí e me disseram que, dentro de uma hora, havia um carro indo para o refúgio do Paso Zongo e que poderiam me levar, caso eu já estivesse pronto. Estava quase pronto, respondi, mas ainda tinha uma coisa importante para fazer. Porém, uma hora seria o suficiente para mim. E o que eu tinha de tão importante assim? Comprar alguns discos do Savia Andina, meu grupo boliviano favorito. Corri para as lojas que eu conheço em La Paz, adquiri mais três preciosos discos para minha coleção de música andina, busquei minha mochila no hotel e partimos para o Huayna Potosí. E o que ouvíamos no carro quando a Cordillera Real se apresentava em todo seu esplendor, à medida que subíamos em direção ao município de El Alto? Errou quem pensou em música andina. Enquanto eu olhava para o Illimani, imponente, quase tocando aquele céu azul e sem nuvens, o lendário disco de Miles Davis e John Coltrane, Kind of Blue, soava mais exótico do que a vista de La Paz no fundo do vale, um som noturno tentando se enquadrar na claridade etérea e límpida daquelas montanhas.

El Alto é, praticamente, um bairro elevado de La Paz, encaixado na borda do altiplano boliviano. Atravessamos um verdadeiro labirinto de ruas e avenidas que me faz lembrar os subúrbios de Kathmandu. O altiplano, no entanto, é uma região extremamente seca, mais parecida com o platô tibetano do que com os férteis vales nepaleses. Pegamos a estrada que vai ao Chacaltaya, que já foi a estação de esqui mais alta do mundo, antes de seu glaciar ser extinto com o aquecimento global, até uma bifurcação, onde havia uma van nos esperando com um grupo que também iria subir a montanha, um casal de ingleses, um italiano, um francês, outra inglesa e três guias. A estrada à esquerda conduzia até o Paso Zongo e, ao fundo, pude ter a primeira visão da face leste do Huayna Potosí, onde fica a rota normal. O dia continuava ensolarado, mas já se podiam perceber algumas nuvens aproximando-se do cume. Após uma rápida parada, rumamos para o refúgio. Lá chegando tive duas surpresas: a primeira era a excelente qualidade daquela construção, um luxo para um “seis mil” que dispunha até de chuveiro com água quente. A outra surpresa não era assim tão agradável: o tempo começou a fechar rapidamente, mal deu tempo de observar a rota até o cume, que se encontrava muito bem marcada, e tirar algumas fotos.


Coloquei minhas coisas em um dos quartos do refúgio e o resto do dia transcorreu sem nenhuma novidade: com o “conforto” daquele lugar não havia muito o que fazer e passei o tempo lendo. Nem comida eu teria que preparar, pois a diária incluía as refeições. Só o clima é que me despertava a atenção. O céu azul deu lugar a um branco total que engoliu não apenas a montanha, mas até a represa localizada a poucos metros da janela de onde eu observava os primeiros flocos de neve cair. Como meu cronograma de subida não tinha nenhuma margem para imprevistos, a situação era preocupante. Mais preocupante porque aquilo se enquadrava com a previsão do tempo que eu havia consultado na véspera. À noite, como de praxe, consultei meu oxigênio e havia caído para uns 86%, com os batimentos tendo aumentado para 70 por minuto. Considerando-se que estava a mais de 4700 m e que havia chegado a La Paz a cerca de 30 horas, estava muito bom e fui dormir confiante na melhora do clima. Mas, estranhamente, não estava conseguindo pegar no sono, havia alguma coisa me incomodando. Custei a notar que estava com calor! Havia levado meu saco de dormir de alta montanha e já estava suando naquele invólucro apropriado para temperaturas inferiores a -20º C. Saí do saco de dormir e percebi que a temperatura no refúgio estava amena e agradável. Aí, sim, o sono veio pesado. Quase perco a noite por excesso de conforto...

No dia seguinte, após acordar e levantar-me por volta das 08:30, a primeira coisa que fiz foi olhar pela janela e ver como estava o tempo: totalmente fechado! Pelo menos não estava nevando. Tomei meu café da manhã, deixei minha mochila preparada e programei minha partida para o refúgio superior para o meio-dia. Foram mais algumas horas de ócio total, alternando leituras e conversas. No dia anterior me disseram que a rota não estava muito segura, pois havia muitas gretas. Um dos guias do grupo que iria subir nesse mesmo dia tentou me persuadir para que eu me juntasse a eles. Procurei me informar sobre as gretas e ele disse que estavam abertas e, caso não nevasse muito, provavelmente continuariam assim. Menos mal, pensei, e recusei a oferta agradecendo sua preocupação. Mantive minha ideia de subir sozinho, pois meu objetivo era treinar e não somente chegar ao cume. Somente tive que adiar minha partida para o refúgio superior para as 14:00, pois o grupo subiria neste horário e os guias estavam com a chave do lugar.



Após almoçarmos o grupo terminou os últimos preparativos e subimos todos: eu, os três guias e seus cinco clientes. Foi só colocar o pé para fora que começou a nevar. A trilha que parte do Paso Zongo começa suave, seguindo uma tubulação de água. Aos poucos a inclinação vai aumentando, tornando a subida um pouco mais forte, apesar de ser facilitada pela trilha bem marcada. Subimos em ritmo tranquilo e, mesmo tendo economizado no peso, sentia que minha mochila não estava tão leve assim. Na parte alta da montanha existem dois refúgios: o primeiro é uma grande construção de pedra situada na cota dos 5100 m; o outro, para onde nos dirigíamos, era bem menor e ficava uns 150 m acima, à esquerda da rota normal. Gastamos cerca de duas horas para chegarmos até o primeiro refúgio.

O caminho para o refúgio superior começa em uma encosta rochosa com uma forte inclinação que, com a neve recente, se mostrava bastante traiçoeira: havia um gelo duro e bastante escorregadio entre as rochas, coberto com uma fina camada de neve. Confesso que deu vontade de colocar os crampons, estava difícil de manter o equilíbrio com o peso da mochila. Os bastões de caminhada perderam sua funcionalidade, pois não penetravam no gelo duro. O jeito foi usar as mãos como um apoio nas rochas laterais e subir lentamente, com todo o cuidado, pois uma queda ali poderia machucar muito. Depois deste trecho inicial, saímos da trilha principal e tomamos um caminho rochoso à esquerda, que leva até o outro refúgio. Mais alguns lances de “escalaminhadas” em um aclive pesado e chegamos lá. Observei a rota normal para o cume bem mais à direita do refúgio e perguntei a um dos guias se era necessário descer de novo para chegar até ela. Ele me respondeu que não, que atrás do refúgio havia outra rota que se encontrava com a normal mais acima. Olhei para a direção apontada por ele e percebi que ali havia bastante gelo e muitas gretas, em um visível contraste com o caminho bem batido da rota normal, com uma neve aparentemente compactada e de fácil trânsito.


Chegamos ao refúgio por volta das 17:00 e, surpreendentemente, o céu começou a abrir. Pude, então, desfrutar da vista da Cordillera Real acima das nuvens, com o Illimani ao fundo. A temperatura começou a baixar e, após algumas fotos, entrei para preparar minha mochila e comer alguma coisa. As refeições estariam incluídas nas diárias dos dois refúgios e fui ver o que os guias estavam cozinhando para seus clientes: sopa. Ainda bem que, por precaução, eu havia trazido comida liofilizada. Tomei um prato de sopa junto com os demais e fui esquentar água para preparar um macarrão, aquela sopa era incompatível com o tamanho de meu apetite na montanha. Comi uma porção caprichada de macarrão com molho branco e frango sob os olhares curiosos de meus companheiros “acidentais” que, certamente, pensavam de onde vinha tanta fome. Mas a curiosidade aumentou ainda mais quando fui medir meu nível de oxigênio: havia voltado para 92%, com os batimentos na faixa de 60 por minuto, excelente! O oxímetro, rapidamente, virou o brinquedinho de final de dia nas mãos de todos, já que ninguém conhecia aquela coisa. Antes de deitar ouvi os guias combinando o horário para o ataque ao cume: acordar 01:00 para sair às 02:00. Eu estava pensando em sair uma hora depois, mas teria que me ajustar a este horário, pois naquele refúgio minúsculo, onde todos dormiam no mesmo compartimento, depois que o primeiro se levantasse todos acordariam.



 Meu “relógio biológico” acabou me despertando 5 minutos antes da hora. Desliguei o alarme e comecei a me preparar mentalmente para o que viria a seguir. Pouco depois alguns “bipes” anunciaram a todos que já era hora de levantar. Comecei a me vestir, preparei meu café da manhã e fui terminando os preparativos naquele cubículo, onde 9 pessoas tentavam, ao mesmo tempo, se ajeitar. Até que os preparativos foram rápidos e a primeira cordada saiu pouco depois de 01:30.

Esperei que todos saíssem e, por fim, comecei a subir antes das 02:00. Em menos de 40 minutos já havia ultrapassado as 3 cordadas e segui firme para cima, me sentia incrivelmente forte e bem disposto. No caminho fui passando por outros grupos até que não enxerguei mais nenhuma luz acima de mim. Percebi que uma das cordadas que saíram do refúgio um pouco antes também estava apertando o passo e se encontrava apenas algumas dezenas de metros mais abaixo. Após vencer um trecho bem íngreme com muito gelo, onde foi necessário sacar a piqueta técnica da mochila, cheguei na aresta que dá acesso ao cume. Só então me dei conta que já estava na parte final da escalada e ainda eram 05:00.

Estava tão motivado e subi tão rápido que acabei chegando no cume ainda de noite, antes das 06:00, seguido pelo outro grupo que também subia em ritmo forte. Chegaram no cume uns 15 minutos depois, sob protesto dos clientes, acho que o guia acelerou propositalmente para me alcançar. Minha ideia era ficar ali até amanhecer, mas, logo depois da chegada da outra cordada, uma espessa neblina envolveu o cume e começou a nevar levemente. O guia me disse que desceria com seus clientes e resolvi descer junto. Já me sentia bastante satisfeito e não queria arriscar mais. Quando chegamos na base da aresta, encontramos com os demais grupos que vinham subindo em um passo “normal”. Nesse momento, começou a amanhecer e a neblina se dispersou, junto com a nevasca. Se tivesse aguardado um pouco mais, pensei, poderia ter visto o amanhecer do cume. Mas não podia reclamar, o desafio estava quase concluído e só me restava regressar até a base, tomar um carro para La Paz, preparar minha bagagem e pegar o voo de volta a Santa Cruz de la Serra, que partiria no final da tarde. Havia conseguido escalar uma montanha acima de 6000 m de altitude em um feriado, saindo e regressando ao Brasil em 4 dias e sem aclimatação prévia!


Álbum de fotos:
Escalando um "seis mil" em um feriado: Huayna Potosí (6088 m) 2010

Em busca do Mercedario: o cume, finalmente! (2010)

Texto por: Marcelo Delvaux

Relato da ascensão realizada em fevereiro de 2010.



Na temporada de 2010 resolvi voltar ao Cerro Mercedario, na Argentina, a quarta montanha mais alta dos Andes, com 6770 m de altitude, localizada ao norte do Aconcagua, na província de San Juan. Após a tentativa frustrada do ano anterior, quando fui obrigado a descer devido as nevascas e fortes ventos, resolvi adotar uma estratégia mais ousada e, por isso mesmo, mais arriscada: já conhecendo a instabilidade e imprevisibilidade do clima naquela região, a ideia seria subir o mais rápido possível, caso conseguisse uma janela de tempo bom, preferencialmente em estilo alpino, sem realização de porteios ou caminhadas de aclimatação.

Cheguei em Barreal em uma segunda-feira pouco depois do meio-dia. Olhando os picos das cordilheiras Ansilta e La Ramada, a impressão é que eles estavam com menos neve do que no ano anterior. Tal impressão se confirmou quando o Ramón, dono da pousada onde eu estava hospedado e que iria me levar de 4x4 até o refúgio da Laguna Blanca no dia seguinte, me disse que no último inverno havia nevado menos do que o normal. Após o almoço fui até o centro da vila consultar a previsão do tempo na internet e a mesma parecia promissora. Havia uma nevasca prevista para a sexta-feira, mas o final de semana prometia ter tempo bom. Preparei minha mochila visando otimizar ao máximo o peso, de modo a conseguir carregar tudo de uma única vez, sem ter que fazer porteios. Só iria partir para uma estratégia convencional de porteio e aclimatação caso não estivesse me sentindo bem o suficiente para subir direto. Para tomar esta decisão, iria monitorar meu nível de oxigênio e meus batimentos cardíacos e analisar meu apetite e as condições de minhas noites de sono.

Parti para a montanha na terça-feira de manhã. Por volta das 11:30 chegamos no refúgio da Laguna Blanca, situado a pouco mais de 3000 m. Combinei com o Ramón de me buscar ali na terça-feira seguinte. Meu objetivo neste primeiro dia era subir direto para Piedras Coloradas, a quase 3900 m, onde iria montar meu primeiro acampamento. O céu estava limpo e fazia calor, mas o vento soprava algumas vezes bem forte. Coloquei a mochila nas costas e iniciei a subida lentamente, procurando encontrar o ritmo adequado. Mesmo tendo economizado no peso, a carga que eu levava ainda era considerável, já que tinha provisões para 8 dias, além de todo equipamento de alta montanha. Este trecho inicial é tranquilo, correspondendo a uma trilha bem larga que sobe gradualmente em “zig-zag” a quebrada do rio formador da Laguna Blanca. Alguns atalhos unem as curvas do “zig-zag”, economizando uns bons metros de caminhada. Após 2 horas cheguei em Guanaquitos (3750 m), o primeiro acampamento da rota normal. Neste ponto, deve-se abandonar a trilha principal, que se dirige ao glaciar del Caballito, e seguir subindo à direita, acompanhando um outro curso de água.


Pouco acima de Guanaquitos aproveitei algumas pedras ao longo do riacho, que estava mais cheio do que no ano passado, para atravessá-lo. Após subir mais um pouco pela margem, cheguei no único local da trilha para Piedras Coloradas que oferece algum tipo de obstáculo: um trecho mais inclinado de pedras soltas ao lado do rio obriga o caminhante a subir pela encosta íngreme e desbarrancada à esquerda, para contornar as pedras e retornar ao rio mais adiante.

Cheguei em Piedras Coloradas às 16:00, com pouco mais de 4 horas de caminhada. Este é um local bastante agradável para se acampar, com água corrente em abundância e temperaturas não muito baixas à noite. Na verdade, estava relativamente quente para aquela altitude, o que explicava o grande volume de água no riacho. Mas isso não era garantia de tempo bom, o clima ali poderia mudar repentinamente. Além do mais, às vezes ventava bem forte e eu não me lembrava de ter enfrentado vento nas duas noites que havia passado neste acampamento no ano passado. Estava me sentindo incrivelmente bem, praticamente não sentia nenhum efeito da altitude. À noite meu oxigênio estava em 95% e os batimentos cardíacos abaixo de 60. Decidi, então, partir direto, no dia seguinte, para a Cuesta Blanca, uns 600 m acima.


A quarta-feira também amanheceu com tempo bom. O céu azul e o calor do sol davam mais ânimo à primeira subida forte que eu iria enfrentar nesta ascensão. Seria, porém, um dia curto, eu estimava fazer aquele trecho em umas 3 horas. Acabei gastando pouco mais de 2 horas, o que me deixou bastante otimista, confirmando que minhas condições físicas estavam excelentes. A trilha que parte de Piedras Coloradas se localiza do outro lado do riacho. Mas eu acho bem mais agradável subir pelo lado onde eu havia acampado: além do percurso ser menor, já que é uma subida mais direta, percorre-se um longo trecho cheio de pequenos cursos de água, que irão formar o riacho mais abaixo. Mais acima se chega a um local repleto de pedras em um aclive de cascalho bem fácil de caminhar, permitindo ganhar altura rapidamente. Uma guinada à esquerda conduz de volta à trilha, em um ponto onde aparecem alguns blocos de gelo na encosta. Surge, então, uma primeira subida mais íngreme e, após o reencontro com o riacho, o caminho segue durante algum tempo sua margem até a principal subida do dia: um longo “acarreo”, à esquerda. Um “acarreo” é um tipo de encosta formada por muitas pedras soltas e cascalho instável. Neste ponto é preciso estar atento aos totens de pedra para encontrar o “zig-zag” da trilha, porque, senão, é um martírio para subir.

Vencido aquele obstáculo, atravessei novamente o riacho mais acima e já pude vislumbrar o imenso anfiteatro que é a Cuesta Blanca, que tem este nome devido à neve de suas paredes. Na verdade, essa neve não passa de um grande campo de penitentes e, dependendo das condições da montanha, a subida para a parte superior da Cuesta Blanca implica na travessia deste típico obstáculo andino. Mas este ano a quantidade de penitentes era menor e, de longe, dava para observar a rota contornando o campo de penitentes, ao invés de atravessá-lo. Que boa notícia, pensei, eu odeio penitentes!


Logo no início da Cuesta Blanca, que é considerada o acampamento base do Mercedario, eu avistei uma barraca alaranjada e seus dois ocupantes, que logo vieram ao meu encontro. Eram dois poloneses, o Jerzy Zaborny e sua companheira Dorota, ou George e Dorothy, como eles traduziam seus nomes para o inglês. O Jerzy era um montanhista experiente e estava vindo do Aconcagua, estando, portanto, bastante aclimatado. Estava subindo a montanha lentamente para que a Dorota também pudesse se aclimatar. Eram gente finíssima e ficamos ali conversando, despreocupadamente. Eles me disseram que os últimos dias foram de muito vento, confirmando o que eu havia observado em Piedras Coloradas. Também falaram que havia uma grande expedição argentina mais acima, que provavelmente havia atacado o cume no dia anterior. Aliás, os argentinos e os poloneses iriam protagonizar um dos dramas vivenciados no Mercedario nesta temporada. Mas coisa pior ainda estava para acontecer, como eu descobriria depois.

Despedi-me dos poloneses, que pretendiam partir para um acampamento localizado na parte superior da Cuesta Blanca no dia seguinte, e continuei subindo, já que eu queria dormir no ponto mais alto do acampamento base. Mais adiante divisei algumas pessoas descendo pela encosta, margeando os penitentes. Provavelmente eram os argentinos. Uma das pessoas do grupo estava descendo bem rápido e acabou chegando antes de mim no local onde eu pretendia acampar. Aproximei-me lentamente e me encontrei com esta pessoa, uma simpática montanhista de San Juan. Ela me disse que seu grupo era formado por treze pessoas e que faziam parte de uma expedição organizada pelo governo da província. Estavam na montanha há mais de dez dias, mas haviam desistido, devido aos fortes ventos. Seis companheiros já tinham desistido antes e, agora, o restante do grupo estava descendo. Aos poucos, os demais integrantes foram chegando e contando sua experiência nos últimos dias. O vento era o grande vilão daquelas paragens e eu já estava convencido que teria que enfrentá-lo, caso quisesse tentar o cume.


Pelo menos tive uma boa notícia: havia água corrente na Cuesta Blanca e não seria necessário derreter neve! Fui até os penitentes com um dos argentinos e ele me mostrou um ponto onde havia uma fissura no gelo e estava correndo água. Ele era o mais velho do grupo e me disse, ironicamente, que por ser o mais velho os outros o mandavam buscar água. Revelou-me, então, que tinha um filho que havia morrido na face sul do Mercedario. Seu filho trabalhava como guia de montanha e resolveu subir pela difícil rota da face sul e descer pela rota normal. Chegando próximo ao cume, desequilibrou-se com o peso da mochila e caiu para trás, uma grande fatalidade. Mas ele me contou isto com grande serenidade, sem demonstrar nenhuma revolta ou rancor em relação à montanha. Até brincou, dizendo que seu outro filho, que também é guia, é muito mais louco e continua vivo. Isto me comoveu profundamente, me fazendo perceber como algumas pessoas conseguem superar de forma tão positiva uma perda como esta: lá estava ele, subindo pela segunda vez a montanha que havia tirado a vida de seu filho.

O pessoal gentilmente me ofereceu comida, dizendo que haviam deixado uma boa quantidade de suprimentos em dois acampamentos mais acima. Eles tinham uma carga considerável para levar embora da montanha, inclusive as coisas deixadas para trás pelos seus companheiros que haviam ido embora primeiro, e parte desta carga acabou ficando ali na base, aguardando as mulas que iriam buscá-la alguns dias depois. E foi nesta “operação limpeza” que cometeram um grande equívoco, responsável pelo drama que eu comentei mais acima: eles acabaram descendo com os equipamentos que os poloneses haviam porteado para a parte alta da Cuesta Blanca. Depois deste dia eu não vi mais os poloneses na montanha e achei estranho. Um outro argentino que eu encontraria dois dias depois, e que também estava subindo em solitário, me disse que os poloneses desceram porque não tinham mais gás. Mais estranho ainda, pois era pouco provável que o Jerzy cometesse um erro destes, calcular mal a quantidade de gás. Só quando voltei a Barreal e reencontrei os poloneses é que fiquei sabendo o que havia acontecido. Eles desceram por que ficaram sem suas roupas e equipamentos de alta montanha. Como eles não falavam nada de espanhol, eu os ajudei a localizar o pessoal em San Juan e o equívoco se resolveu: suas coisas estavam lá na cidade. Mas a montanha estava perdida para eles.

Após despedir-me, montei minha barraca e fui preparar um lanche com os queijos e salames que eles haviam deixado para mim, um luxo naquela altitude. Pouco depois, tive que preparar uma amarração para minha barraca nas pedras ao lado, tamanha era a força do vento. É, pensei, mais uma vez terei o vento como companheiro de montanha. Aliás, este tem sido meu “companheiro acidental” nos últimos anos e acho que já estou me acostumando com seu mau humor. Consolei-me olhando para os penitentes ao longe: pelo menos desta vez estou livre de vocês!



À noite aconteceu um fenômeno estranhíssimo. Estava na barraca e comecei a ouvir um barulho de água. Inicialmente, pensei que poderia ser o vento. Que nada, ao sair para ir ao “banheiro”, tinha um verdadeiro riacho correndo no declive que fica abaixo do local onde as barracas do acampamento base normalmente são armadas. Não entendi porque a água começou a descer neste horário, o mais lógico seria que isso acontecesse no meio da tarde, com o derretimento da neve proporcionado pelo sol forte. Mas aquele barulhinho de água veio em uma hora boa, na hora de dormir... E foi mais uma excelente noite de sono! Meu batimento ainda estava em torno de 60 e meu oxigênio continuava em alta, a 92%. Sinal verde para subir, no dia seguinte, diretamente para o próximo acampamento, Pirca de Indios, a cerca de 5200 m.

A manhã de quinta-feira apresentou-se, mais uma vez, ensolarada e com céu azul. Mas o vento parecia mais constante e me obrigava a caminhar com uma jaqueta. Pela frente eu tinha a subida mais difícil desta fase de aproximação, antes do ataque ao cume: a parede do anfiteatro da Cuesta Blanca, em uma trilha bastante íngreme e inclinada, com muitas pedras soltas. Gastei umas 4 horas até Pirca de Índios, onde eu pretendia montar meu último acampamento. Minha ideia era atacar o cume dali, enfrentado um desnível de mais de 1500 m. Uma das dificuldades da rota normal do Mercedario, que a torna mais exigente do que a do Aconcagua, é justamente a localização dos acampamentos avançados. Acima de Pirca de Indios existem duas possibilidades: La Hoyada (5800 m) e El Diente (6100 m). O problema é que estes locais são bastante expostos aos fortes ventos, principalmente La Hoyada, que se localiza na entrada do glaciar homônimo e é constantemente varrida pelo “viento blanco”. Ou o montanhista se expõe ao vento para encurtar o ataque ao cume, ou parte de Pirca de Indios (5200 m). Esta última opção, além do imenso desnível, também oferece como obstáculo uma grande distância a ser percorrida, bem maior do que aquela que separa o Nido de Condores do cume do Aconcagua.



Pirca de Indios tem este nome devido aos restos arqueológicos encontrados ali: pilhas de pedras remanescentes de antigos acampamentos incaicos! No Mercedario foram encontrados vestígios da presença dos incas até uma altitude de 6100 m. Eles foram os verdadeiros pioneiros do montanhismo nos Andes, sendo responsáveis pela “primeira ascensão” de muitos cumes só escalados, posteriormente, no século XX.

Antes de dormir conferi novamente minhas condições: oxigênio a 85% e batimento inferior a 70. Depois fiquei sabendo que nesta noite houve um tremor de terra na montanha. Os poloneses e o argentino que estavam mais abaixo sentiram o tremor. Eu não percebi nada, talvez já estivesse dormindo. Seria um prenúncio do forte terremoto que sacudiria o Chile alguns dias depois, já que ali estávamos bem próximos da fronteira? Isso talvez explicasse o estranho “riacho noturno” da noite anterior. Provavelmente, também deve ter acontecido um pequeno tremor naquela noite, liberando a água que se precipitou montanha abaixo.

Na sexta-feira de manhã o vento estava forte e algumas nuvens surgiram no céu. Lembrei-me da previsão de nevasca para aquele dia. Antes do meio-dia o vento melhorou e eu resolvi subir em direção a La Hoyada, para analisar as condições do trecho que eu iria percorrer de noite, durante o ataque ao cume. Novamente me sentia muito bem, tão bem que não resisti e subi em ritmo forte, gastando uma hora e meia para superar os 600 m de desnível até La Hoyada. Em condições normais eu teria subido tranquilamente, economizando energia, mas eu parecia uma pilha carregada e estava bastante motivado e feliz por estar de volta ali. Será que a montanha me daria uma trégua desta vez? Quando comecei a descer de La Hoyada uma massa considerável de nuvens começou a se acumular nas partes altas da montanha. Meu ânimo passou a alternar momentos de otimismo e pessimismo. Se o tempo fechasse de vez e começasse a nevar muito, o cenário do ano passado poderia se repetir.



Quando estava chegando de volta a Pirca de Índio vi uma pessoa subindo com uma mochila cargueira. Pensei que era o Jerzy e fui ao seu encontro, mas era um argentino chamado Jorge, outra figura “gente fina”. Após instalar sua pequena barraca de vivac, ele foi me fazer uma visita e me contou que, na semana anterior, ele havia feito uma tentativa de subir o Mercedario, mas foi forçado a descer, pois seu parceiro de escalada havia passado mal e sua barraca foi destroçada pelo vento em La Hoyada. O Jorge também era bastante experiente, tendo escalado o Daulaghiri, no Himalaia, junto com uma expedição catalã em 2003. Falei sobre minha intenção de atacar o cume dali e ele me alertou sobre a grande distância que eu teria que enfrentar. Ele preferia subir até El Diente e faria isto em um ou dois dias. Enquanto conversávamos, o vento aumentou e nos refugiamos em minha barraca. O Jorge me disse, então, que a previsão de tempo bom seria para o domingo. Como me sentia muito bem, eu estava cogitando atacar o cume nesta madrugada. Temia que a previsão de tempo bom pudesse não se concretizar e eu perdesse a oportunidade. Preparei todas as coisas para o ataque e fui dormir mais cedo. Deixaria para decidir se eu partiria ou não na própria madrugada de sábado, quando acordasse, observando as condições do vento. Meu nível de oxigênio havia subido novamente para 90% e os batimentos cardíacos continuavam baixos, inferiores a 70.

Acordei à meia-noite, quer dizer, fui acordado pelo meu companheiro, o vento. Praticamente não consegui dormir novamente, com as seguidas rajadas que sacudiam a barraca. Hoje não vai dar mais, pensei, e desliguei o despertador. Só voltei a dormir profundamente depois das 03:00, pouco antes do horário que eu havia planejado levantar. Às 05:00 da manhã acordei novamente e me deu vontade de partir. O vento continuava, não havia sinal de uma melhora significativa. Mas minha intuição dizia: “apúrate”. É interessante como, em grandes altitudes, nós temos às vezes estes vislumbres intuitivos, pelo menos comigo é assim. Acendi a lanterna, vesti minha roupa, comi meu desjejum e saí para aquela imensidão estrelada que é a noite na montanha. Sabia que não podia errar: se eu queimasse este ataque, seria pouco provável que eu pudesse recuperar minhas forças e teria que descer. Afinal de contas, iria buscar o cume da quarta montanha mais alta dos Andes com apenas quatro dias de subida!

Comecei a subir pela parede lateral do anfiteatro glacial onde Pirca de Indios está localizado, buscando os pequenos totens que marcam o caminho. O vento até que estava suportável, mas temia o que iria acontecer quando o dia amanhecesse. Não me animava nem um pouco a ideia de me deparar com o verdadeiro “furacão” do ano passado. Após o local conhecido como Pirca de Indios Superior avistei, ao longe e bem abaixo, as luzes de uma pequena vila, provavelmente Barreal. Começou a amanhecer e o sol surgiu imponente, inundando de luz montanhas e vales. E o vento começou a aumentar. Novamente, gastei cerca de uma hora e meia até La Hoyada. Chegando lá percebi um cenário totalmente diferente do dia anterior: havia nevado, conforme a previsão! E o “viento blanco” varria, impiedoso, aquele ponto exposto da montanha.



Coloquei meu goggle, uma máscara de esqui que oferece mais proteção em caso de tempestades e ventos fortes, e parti em direção ao “viento blanco”. Foi a primeira grande batalha do dia, parecia que eu estava no meio de uma forte nevasca. Só ficaria livre desta situação depois que eu subi pela rota que leva até El Diente. O Jorge havia me dito que havia um “zig-zag” bem marcado neste ponto, mas com aquele vento levantando neve e gelo, não dava para enxergar nada, apenas era possível distinguir a trilha de descida, uma longa e inclinada reta que levava diretamente até La Hoyada. Não tive alternativa, tive que subir por ali. Forte, muito forte, é o mínimo que eu posso dizer para descrever esta subida que, na verdade, não deveria jamais ser utilizada como subida. Somente consegui encontrar o “zig-zag” bem acima de La Hoyada. Neste ponto pude respirar um pouco mais aliviado, já que a rota se tornou mais fácil e o “viento blanco” havia ficado para trás.

A longa subida até El Diente foi vencida sem maiores surpresas. Devo ter gastado umas duas horas e meia neste trecho. Uma hora mais e cheguei no que considero o ponto crítico da rota normal do Mercedario: após mais de cinco horas de subida, avista-se o falso cume ainda muito longe. A rota, agora, segue pela parte superior do glaciar La Hoyada, em um trecho inclinado repleto de pedras soltas. Na medida em que se sobe, o terreno fica pior e mais instável. É uma longa travessia paralela ao glaciar que lembra, vagamente, o Gran Acarreo do Aconcagua. Qualquer deslize pode significar rolar montanha abaixo. Imagino que muitos desistem ali. Em alguns pontos, devido à forte inclinação, a neve se acumula e, ao se compactar, vai se transformando em placas de neve dura ou gelo que devem ser cruzadas em diagonal. Em uma dessas travessias a neve estava tão dura que não dava para passar fazendo degraus horizontais chutando com a ponta da bota, onde seria possível pisar com uma certa estabilidade. O jeito era calçar os crampons. O problema era que isto significava parar no meio do vento, ou seja, ficar exposto ao frio. Mas não havia alternativa. Coloquei rapidamente os crampons, atravessei a neve dura, e continuei sem descalçá-los, pois não queria parar novamente e havia outros trechos com neve mais adiante.

Depois de algumas subidas fortes, o falso cume ficou mais próximo e a rota desapareceu, confirmando minha tese que a desistência neste trecho deve ser constante, deixando poucas marcas no caminho. Eu sabia que teria que seguir em direção ao falso cume, sem subir até o topo, para então buscar o cume verdadeiro, que deste ponto ainda não era visível. Havia duas alternativas: continuar subindo à esquerda em direção ao falso cume ou subir mais à direita em uma linha mais suave. Olhei para frente e vi o glaciar subindo abruptamente, em direção ao ponto onde eu imaginava que o cume verdadeiro se localizava. Então me decidi: vou subir pelo glaciar, fazendo uma variante da rota normal.

Para chegar ao glaciar também havia duas opções: como eu estava na encosta rochosa acima do mesmo, bastaria descer à direita, mas eu não queria perder altitude. A outra opção era seguir adiante até o ponto em que a encosta se encontrava com o glaciar. Foi o que fiz e esta foi a parte mais sofrida de todas. Em vários pontos havia formações rochosas atravessando o caminho, formando grandes desníveis em direção ao glaciar. Era por isso, certamente, que a rota normal seguia em direção ao falso cume: era uma subida mais íngreme em um cascalho instável, mas sem grandes riscos. Onde eu estava havia mais perigo de uma queda, que poderia ser fatal. Além do mais, eu estava com os crampons, que resvalavam a todo momento nas rochas. Mesmo assim não me animava em parar no vento para tirá-los, já que no glaciar teria que colocá-los de novo. Foi, sem dúvida, o trecho em que mais me cansei.

Depois de muito esforço cheguei no glaciar. Para minha alegria, a neve estava bem dura, perfeita para se ganhar altitude rapidamente. Eu não tinha nem ideia de como era aquele glaciar. Olhando para cima, uma grande greta me espreitava como uma imensa boca, aberta e ameaçadora. Comecei a subir em direção ao lado direito da greta. Minha intenção era atravessar a linha da greta em um sentido perpendicular, para evitar andar na borda de uma possível parte da greta encoberta pela neve. Mas isto significava subir em linha reta e a inclinação começou a aumentar cada vez mais. Neste momento não sentia mais o vento, nem o cansaço das últimas duas horas. Novamente me senti revigorado e com uma grande energia, física e mental, para superar aquela situação. Eu era pura concentração, não sei descrever o que me passou pela mente a partir de então...

Quando já estava bem acima da greta, tomei uma diagonal para a esquerda para tentar suavizar a inclinação. O interessante quando se sobe por um glaciar com uma forte inclinação é que não dá para ver nada quando se olha para cima, apenas uma borda arredondada, é como caminhar sobre a superfície de uma bola. Quando a diagonal para a esquerda se tornou muito íngreme, inverti a direção e tomei outra diagonal para a direita. Depois de um tempo, me virei para cima e, para minha surpresa, a borda arredondada havia se transformado em uma linha reta, como se eu fosse chegar na borda de um precipício. Estaria chegando no cume? Olhei para os lados e percebi que estava mais alto que tudo ao meu redor, inclusive do falso cume, lá longe, à minha esquerda. Mais uns passos e me dei conta que não havia chegado no cume, mas em uma crista no alto do glaciar, que se precipitava diretamente em direção à face sul da montanha. Tenho a impressão que a rota da face sul termina neste mesmo lugar. Olhando para a esquerda vi o cume verdadeiro, uns trinta metros, no máximo, acima daquele ponto. Caminhei extasiado, e exausto, por aquela crista fantástica. Olhei para o sul: lá estava, imponente, o Aconcagua. Aos meus pés descortinava-se a visão dos outros gigantes da cordilheira La Ramada. Ainda não estava no cume, mas sabia que havia conseguido!




Cheguei ao lado do cume, tirei minha mochila e comecei a ensaiar algumas fotos. O vento deu uma diminuída, o que me permitiu tirar minhas luvas “mitten”. Incrível como consegui ficar uns 20 minutos ao lado do cume, sem nenhuma ansiedade em chegar até lá, tirando minhas fotos tranquilamente e apreciando a vista. Em seguida, subi os metros finais e pude curtir aquele incrível visual de 360 graus que o cume oferece. Foram, aproximadamente, oito horas e meia até lá.




Devo ter ficado mais de uma hora no cume. Como nos Andes argentinos, nesta época, escurece depois das 21:00, eu tinha bastante tempo para a descida. Comecei a descer pouco depois das 15:30 por uns “acarreos” que se tornaram terríveis após o falso cume. Até chegar na trilha da rota normal tive que enfrentar muita pedra solta em lugares que davam a impressão que iriam desmoronar, caso eu fizesse algum movimento brusco.

Antes de chegar em El Diente minha água acabou e a sede começou a me incomodar. Para descer para La Hoyada sai da rota e peguei um caminho mais direto que, em poucos metros, se transformou em mais uma descida perigosa e instável. A sede se transformou, então, em algo desesperadamente insuportável. Eu via lá embaixo todo aquele gelo do glaciar e não via a hora de chegar em minha barraca e preparar um suco. Mas a progressão era lenta, apesar de estar descendo, pois tinha que escolher bem meus passos naquele trecho íngreme.

Chegando próximo a La Hoyada não aguentei: desviei meu caminho para o glaciar. Já era final de tarde e, com o calor do sol, o gelo estava úmido e brilhante, uma tentação para quem está sedento! Por baixo do gelo era possível escutar a água correndo. Bati violentamente com meus pés nas placas de gelo, na esperança de encontrar água, mas a mesma estava em uma profundidade inalcançável por este método. O jeito era quebrar o gelo em pequenos pedaços e colocá-los na boca para derretê-los. Fiquei uns vinte minutos sentado ali, descansando e tentando me hidratar um pouco. Até que deu para enganar um pouco a sede.

Após sair de La Hoyada e reencontrar a trilha, pude finalmente relaxar, já que agora o caminho era bem mais fácil, e comecei a última grande descida até Pirca de Indios. Desci bem devagar, curtindo o visual. Mas também não dava para ir mais rápido, estava realmente bem cansado após mais de 12 horas de esforço contínuo, sem contar a parada no cume, e a sede voltou a me perturbar. Finalmente, cheguei a Pirca de Indios e o Jorge, ao ouvir meus passos, saiu de sua barraca para me cumprimentar e me entregar um litro de suco que ele havia feito para mim! Não poderia esperar nada melhor do que isso... Conversamos rapidamente sobre o cume e eu fui para minha barraca. Ainda tive que providenciar minha refeição antes de poder descansar.

No domingo me dei ao luxo de dormir até depois das 09:00. O vento não havia melhorado e, para piorar, a noite havia sido extremamente fria. Ainda bem que eu resolvi atacar o cume ontem, pensei, pois hoje teria o mesmo vento com uma temperatura mais baixa ainda. Vi que o Jorge estava preparando suas coisas para subir para El Diente. Fui até ele me despedir e desejar-lhe boa sorte. Às 11:00 da manhã já estava pronto para descer a montanha. Com um pouco de sorte poderia chegar em Barreal naquele mesmo dia.

Desci tranquilamente, curtindo a montanha. Esta é uma região dos Andes que eu gosto bastante e é incrível como, sem nenhuma razão aparente, nós nos sentimos tão bem em determinados lugares! Fiz duas paradas nos locais onde havia acampado e, por volta das 16:00, já estava no refúgio da Laguna Blanca. O desafio, agora, era conseguir um transporte para Barreal. A única alternativa era torcer para que alguma caminhonete da empresa que tem uma mina naquela região passasse pela estrada ao lado do refúgio. Meia hora depois vi uma caminhonete branca e corri para a estrada. Infelizmente, vinha no sentido contrário e ia em direção à mina. Mas o motorista me disse que ia se comunicar por rádio para o escritório da empresa, pedindo que eles chamassem o Ramón lá em Barreal.

Esperei mais umas três horas e nada. Já estava convencido que teria que passar a noite no refúgio, quando vi outra caminhonete de cor escura vindo da Laguna Blanca. Opa, as caminhonetes da mineradora são todas brancas, quem sabe não é o Ramón, falei para mim mesmo. Mas não queria comemorar antes da hora e fiquei sentando em frente ao refúgio vendo a caminhonete passar. Se for o Ramón ele vai vir até aqui, pensei. A estrada sobe por trás do refúgio e eu me virei para esta subida: se a caminhonete passasse por ali, minhas esperanças teriam sido em vão. Mas a caminhonete sumiu, não veio até o refúgio, nem fez a volta atrás do mesmo! Levantei-me e fui ver o que estava acontecendo. A caminhonete estava manobrando para, aparentemente, retornar em direção a Barreal. Corri, pensando que o motorista estava voltando. Mas a caminhonete parou e saíram três pessoas de dentro. Uma delas pulou na caçamba e começou a sacar umas mochilas cargueiras. Caminhei em sua direção e esta pessoa levantou a cabeça e exclamou assustado: “¿Marce, qué estás haciendo aquí?”. Era o Ramón. Não havia recebido a chamada de rádio prometida pelo motorista da mineradora, mas estava trazendo uma dupla de montanhistas de Buenos Aires para escalar o Mercedario.

Que sorte, comemorei, pensando que minha relação com aquela montanha terminava ali, pelo menos desta vez. Mal sabia que, naquele momento, iniciava-se o grande drama desta temporada no Mercedario. Troquei algumas palavras com os montanhistas de Buenos Aires, que planejavam ficar uma semana e meia na montanha. Eram um homem e uma mulher. Na minha empolgação, não guardei seus nomes. Alguns dias após meu retorno tive um tremendo susto, ao me deparar com a seguinte notícia: “Montanhista argentino continua desaparecido no Mercedario”. Meu sangue gelou, na hora pensei que era o Jorge. Abri a notícia e, preocupado com o Jorge, li o nome do andinista desaparecido: Javier Paduszck. Ao ler o restante do texto, que mencionava uma dupla de Buenos Aires, a “ficha caiu”: eram os montanhistas que eu havia encontrado no refúgio. Isto se confirmou quando vi a foto do Javier. Fiquei bastante triste e abalado e continuei, nos dias seguintes, ainda “ligado” à montanha, buscando na Internet alguma novidade sobre as tentativas de se encontrar o Javier pelas equipes de resgate. Infelizmente, as chances de encontrá-lo com vida eram muito remotas e o pior se confirmou alguns dias depois.

Álbum de fotos:
Expedição ao Mercedario (6770 m) 2010

Primeira tentativa de ascensão ao Cerro Mercedario (2009)


Texto por: Marcelo Delvaux

Relato da ascensão realizada em fevereiro de 2009.


Em 2009 eu tinha 10 dias livres na época do Carnaval e resolvi subir o Mercedário, uma montanha localizada ao norte do Aconcagua e que, com seus 6770 m, é a quarta mais alta dos Andes. Chegar na montanha já era meio complicado, pois requeria, no mínimo, 2 dias: seria necessário ir até Mendoza, depois para San Juan e, de lá, para uma vila chamada Barreal, que só tem dois ônibus diários, um pela manhã e outro pela noite. Depois, mais 2 horas em um 4x4 para chegar até o refúgio, localizado a 3000 m. Considerando-se que voltaria ao Brasil depois, a ideia era tentar subir bem rápido, em 6 ou 8 dias, no máximo, reservando outros 2 dias para o retorno. O principal fator que poderia atrapalhar seria o clima pois, caso estivesse ruim, não poderia ficar muito tempo esperando.

Eu cheguei no refúgio da Laguna Blanca (3000 m), ponto de partida para a subida ao Mercedario, em um domingo ensolarado, com céu azul e sem ventos. O tempo permaneceu assim por 2 dias, até eu montar o acampamento base a 3900 m.  


Já estava preocupado até quando o tempo bom iria durar, pois o clima no Mercedario é tão instável quanto no Aconcagua. No terceiro dia, quando fui fazer o primeiro porteio para estabelecer o acampamento avançado em Pirca de Indios, o tempo mudou e começou a nevar. No quarto dia, quando me mudei do acampamento base para o acampamento avançado, a 5200 m, tive que montar minha barraca debaixo de nevasca. Mas ainda tinha 4 dias pela frente para o tempo melhorar...


Foram 4 dias preso na barraca, nevando quase sem parar. De vez em quando precisava sair para afastar a neve com o piolet, pois ela já estava comprimindo a barraca. Eu tive que "racionar" o único livro que eu tinha em mãos, o clássico "No ar rarefeito", estabelecendo o número de páginas que poderia ler por dia, para não ficar sem nada para fazer (além disso, eu ouvia música e derretia neve para fazer água).

No terceiro dia de minha "prisão domiciliar" o tempo começou a esquentar, apesar de não parar de nevar. Eu interpretei isso como uma possibilidade de mudança de tempo e resolvi me preparar para um ataque ao cume na madrugada. Acordei às duas e meia da manhã e estava nevando. Cochilei mais uma hora e olhei para fora novamente: havia algumas estrelas no céu! Então, resolvi partir para cima. Quatro e pouco da madrugada saí. A neve acumulada chegava até o joelho e, com muito esforço, subi pela encosta nevada, até que percebi que havia alguma coisa estranha. Era a visibilidade que estava cada vez pior. Ao apagar a lanterna para enxergar a silhueta de umas rochas no alto percebi que não dava para ver mais nada: uma nova tempestade estava se formando! Desci rapidamente e, quando cheguei na parte baixa, o vento e a neve que caía já haviam apagado minhas pegadas e não era possível enxergar mais do que 3 ou 4 metros. Lembrei-me do episódio do livro "No ar rarefeito", onde as pessoas passaram a noite ao relento no colo sul do Everest, a poucos metros das barracas, debaixo de uma tempestade. Mas eu havia me prevenido e ligado meu GPS antes de sair, o que me permitiu localizá-la sem problemas.


Eu tinha somente mais um dia para o tempo melhorar, já que no dia seguinte teria que descer. Meu quarto dia no acampamento avançado começou ainda mais quente que o anterior. Parecia que a camada de nuvens estava cada vez mais fina, refletindo o calor do sol em cima da neve. Aconteceu, então, um impressionante fenômeno de inversão térmica A temperatura começou a aumentar após o meio-dia: estava 32 graus dentro da barraca; de repente passou para 36, 38, 40 graus! E nevando lá fora. Não dava para sair, o jeito era tirar a camisa e curtir o calor. Aproveitei para tomar um sorvete liofilizado que eu havia levado. Mas, apesar disso, não parava de nevar...

O tempo só abriu às 18:00, desta vez para valer. O problema é que não haveria tempo para a neve acumulada derreter. Eu sabia que teria neve pelo joelho dali até o cume. Mas iria tentar assim mesmo. Outra preocupação era com o vento. Depois de vários dias de tempo ruim, geralmente forma-se uma zona de baixa pressão que traz ventos fortes.

Acordei às 3 da madrugada e estava bastante frio, por isso resolvi ficar mais um tempo na barraca e sair um pouco mais tarde, para ficar menos tempo exposto às baixas temperaturas. Mas às 03:30 não resisti: coloquei a cabeça para fora da barraca e vi um tapete de estrelas no céu. Aparentemente, não estava ventando muito. Vesti-me rapidamente, tomei meu café da manhã, cereais com leite quente, biscoitos e frutas secas e, pouco depois das 4 horas, parti para minha última oportunidade de ataque ao cume.

Mais uma vez subi com neve até os joelhos. Não havia mais rota definida para subir a montanha, o jeito era fazer um ziguezague e procurar alguns lugares onde havia um pouco de cascalho misturado à neve, que congelava e formava uma camada de gelo menos fofa. Apesar do tempo aberto, a noite estava escura. Como estava sozinho na montanha e a neve cobriu tudo, tinha que descobrir a rota por conta própria. Alcancei uma crista e comecei a subir mais um lance de neve extremamente fofa, até os joelhos. Percebi que o vento estava cada vez mais forte, mas até então estava suportável e eu estava muito bem abrigado.

Ao amanhecer alcancei outra aresta, próximo de um local conhecido como La Hoyada. Já estava a mais de 5800 m e ainda teria uns 900 m para o cume. Foi quando eu peguei o pior vento de minha vida, nunca vi nada parecido. Estava em um local bem exposto e o vento soprava para fora da montanha. A neve fofa converteu-se em uma vantagem, pois me permitia ficar imóvel para suportar as rajadas. Percebi que, se soltasse os bastões, eles seriam carregados. O barulho do vento era realmente assustador, parecia um grito. De repente, algo inconcebível aconteceu: o vento arrancou meu gorro junto com minha lanterna. O gorro estava apertado em minha cabeça e eu estava, justamente, reclamando disso. Mesmo assim o vento o arrancou, debaixo do capuz de minha jaqueta. Por sorte, a lanterna caiu na neve e consegui recuperá-la. O gorro se foi...


Ainda tentei subir mais alguns metros, mas vi que seria impossível enfrentar aquele vento. Como o vento soprava para fora da montanha, até para descer estava difícil. Eu jogava meu corpo para frente e ficava parado, era como se tivesse alguém me sustentando no ar. O pior é que eu não podia largar os bastões ou tirar as luvas para pegar meus óculos de neve, sob o risco de saírem voando. Já havia amanhecido e a claridade estava me incomodando muito. Com muito custo comecei a descer e só depois de bastante tempo é que consegui, já na parte baixa, sentar e colocar os óculos. Cheguei na barraca e tentei cochilar um pouco, mas o vento não me deixava dormir. Eu olhava para a crista da montanha e via o "viento blanco" em ação, levantando neve e gelo a muitos metros de altura. Quando vi que seria impossível dormir, abri os olhos e percebi que havia uma névoa dentro da barraca. Na verdade, era minha vista que havia sido afetada pelo vento e pela claridade, durante o período que fiquei sem os óculos. Fiquei usando óculos dentro da barraca e meus olhos só foram melhorar umas duas horas depois. Resolvi descer a montanha neste mesmo dia e, às seis horas da tarde, cheguei ao refúgio na Laguna Blanca.

Mesmo sem ter feito cume foi uma experiência fantástica. Fiquei 8 dias em uma montanha imensa, absolutamente sozinho, tendo que descobrir toda a rota, que se encontrava coberta pela neve, por minha conta. Voltei fascinado com a região. O Mercedario fica em uma cordilheira chamada La Ramada, que possui outros três picos com mais de 6000 m. Ao lado desta cordilheira está outra, chamada Ansilta, com vários picos acima de 5000 m. É uma região muito pouco explorada com inúmeras possibilidades de ascensões, inclusive para a abertura de novas rotas. Barreal, por sua vez, é uma vila bastante agradável, situada a 1700 m de altitude. Lá é bastante quente no verão e é possível intercalar as escaladas com um descanso em alguma pousada, curtindo o calor em uma piscina. Tem tudo para ser tornar um "point" de alta montanha. Eu recomendo muito!

Álbum de fotos:
Expedição ao Mercedario (6770 m) 2009

Marmolejo: “a montanha invisível” - 3ª parte (2013)


Texto por: Marcelo Delvaux

Relato da ascensão realizada em janeiro de 2013.



Acordei com o “bip-bip” do relógio e, como de costume, a primeira coisa que fiz foi abrir a porta da barraca e dar uma espiadela no céu: a noite estrelada e sem ventos que se apresentou aos meus olhos ainda sonolentos era como o negativo de um dia perfeito, que se revelaria ao nascer do sol em todas as suas cores. Preparei meu desjejum, leite quente com cereais e alguns biscoitos, e comecei a me vestir. A ideia era sair antes das 05:00 para tentar chegar ao cume até as 14:00 ou 15:00, no máximo. Teria um grande desnível para vencer, cerca de 1500 m, e calculei que gastaria uma hora e meia até a entrada do glaciar, onde está o Acampamento Avançado, a uns 4900 ou 5000 m, e depois mais 7 ou 8 horas até o cume. A descida seria bem mais rápida, umas 4 horas ou pouco mais que isso e, certamente, eu estaria de volta na barraca ainda com a luz do dia.

Menos de uma hora depois de me levantar eu já estava pronto para sair. Faltava somente colocar os “mitones”, que são as luvas impermeáveis que nos protegem do frio extremo das grandes altitudes. Quando tirei as luvas de dentro da mochila, tive a sensação de estar pegando em um objeto maciço: as luvas estavam congeladas, incrível! Tentei colocá-las assim mesmo e saí da barraca para fazer um teste. Em poucos minutos minhas mãos começaram a doer com o frio e percebi que assim não seria possível, era melhor perder um tempo para descongelar as luvas do que sofrer até o dia amanhecer. Resolvido o problema, saí novamente da barraca, pronto para iniciar o tão esperado ataque ao cume do Marmolejo, montanha que, até agora, eu ainda não tinha visto a cara. Mas uma nova surpresa me esperava: a rota estava coberta com a neve fresca que caiu durante o dia anterior e o trecho que eu havia percorrido até o canal com os penitentes estava muito mais difícil do que eu poderia imaginar. Mal havia iniciado minha jornada e o progresso já era lento. O primeiro obstáculo era subir até o topo de uma “morena” e a neve profunda, acumulada entre grandes rochas, transformou uma passagem bastante simples, que eu nem havia tomado conhecimento na véspera, em um exercício de esforço e paciência.

Devo ter gasto mais do que o dobro do tempo que precisei, no dia anterior, para chegar aos penitentes e iniciar a subida do trecho íngreme que me daria acesso ao glaciar. Devido à forte inclinação, havia menos neve nessa parte e consegui acelerar um pouco. Na metade da parede amanheceu o dia e percebi, preocupado, que estava mais lento do que o previsto. Por sorte, a neve mais acima estava quase perfeita e consegui imprimir um ritmo mais forte. Não havia sinal da rota, nem totens para orientar o caminho, e fui subindo seguindo o rumo mais lógico, no sentido da aresta onde me encontrava.


Já passavam das 07:00 quando avistei um cercado de pedras, me indicando que eu estava chegando ao Acampamento Avançado. Finalmente, enxerguei um amplo glaciar com uma montanha triangular ao fundo. Lá estava o gigante Marmolejo com o seu cume, aparentemente, bem próximo. Mas sabia que essa noção de proximidade não passava de uma “ilusão de ótica”. Com uma inclinação que, raramente, passava de 35o, e mais de 1100 m de desnível para subir, havia uma grande extensão de glaciar a ser percorrido até o cume. E as condições do glaciar não pareciam nada animadoras, já que um grande campo de penitentes cobria toda sua base.


Comecei a abrir caminho por entre os penitentes em direção à parte central do glaciar, uma tarefa irritante e cansativa que me fez lembrar algumas experiências anteriores em montanhas como o Sajama, na Bolívia, ou o Nevado Ampato, no Peru. Depois de muito esforço percebi que o glaciar não era contínuo, havia uma grande descida logo à frente, uma espécie de depressão que me separava do meu alvo: a aresta que se situava à esquerda da pirâmide do cume. Havia duas alternativas principais de ascensão, ou por essa aresta à esquerda, mais ou menos situada ao norte da montanha, ou por outra aresta mais ao sul. A primeira opção seria mais direta, mas eu teria que descer a depressão atravessando uma grande extensão de penitentes. Como havia gasto uns 45 minutos para vencer um trecho ínfimo até o ponto onde me encontrava, descartei essa possibilidade que demandaria um tempo excessivo. O jeito era regressar até o Acampamento Avançado e tentar contornar os penitentes pela direita, buscando a aresta mais ao sul. Perdi mais de uma hora nessa tentativa de passar por esses obstáculos de gelo e minha intuição me dizia que o dia seria longo e exaustivo. Seria necessário subir o mais rápido possível, sempre que as condições assim o permitissem.


A ideia de contornar o glaciar pela direita foi a mais acertada. Apesar de não ter me livrado totalmente dos penitentes, pelo menos nessa parte eles tinham um tamanho menor e estavam mais espaçados, facilitando meu avanço. O problema é que a distância parecia ser muito maior por esse lado. O glaciar também estava bem diferente do que havia visto em algumas fotos, quando estava pesquisando a rota. Conforme as indicações que eu consegui obter, quase não havia gretas na rota normal e o glaciar, supostamente, terminava uns 400 m acima do Acampamento Avançado, sendo o restante do trajeto formado por “acarreos” de pedras até o cume. Mas a visão que eu tinha a minha frente era bem diferente: a montanha parecia coberta por uma neve profunda e o glaciar estava repleto de gretas em sua base e na parte central. Para buscar a aresta ao sul, inevitavelmente, seria preciso “negociar” meu caminho por entre esses abismos gelados. Olhei para o cume e, apesar de passar das 09:00, como eu estava na face oeste, o sol ainda não havia despontado, projetando uma auréola brilhante em sua crista dando-lhe um aspecto fantasmagórico.

A depressão também era mais suave nesse lado do glaciar, facilitando minha descida. Em pouco tempo minha desconfiança se confirmou: a neve estava fofa e, a cada passo, eu afundava até o joelho. O sol chegou forte depois das 10:00 e meu ganho de altitude nas últimas 3 horas havia sido mínimo, já que tive que descer para subir novamente. Faltavam, ainda, quase 1000 m de desnível até o cume e começou a fazer calor, me obrigando a hidratar-me continuamente para conseguir manter o ritmo. Eu havia levado uns 4 litros de líquidos e já temia que não seriam suficientes. A subida passou a ser lenta e monótona: era um dia perfeito, com céu azul e poucos ventos. Mas a neve profunda e instável não ajudava e era preciso ter paciência para não desistir.


As próximas horas se passaram assim, sem muitas novidades: sol forte, claridade extrema, sede, neve fofa e um altímetro que teimava em não sair do lugar. Cada vez que olhava para o relógio, constatava que havia subido bem menos do que imaginava, ou gostaria. Mas era inevitável fazer uma projeção e, quando já era quase meio-dia calculei que, no ritmo em que eu subia, e se as condições da neve permanecessem daquele jeito, chegaria ao cume por volta das 17:00. Além da esperança de haver menos neve no alto da montanha, a previsão de tempo bom para todo o dia me motivava a continuar. Também sabia que a descida seria bem mais rápida, já que encontraria a rota aberta e, tendo luz até as 21:00, pelo menos, estaria dentro de uma margem de segurança razoável.

A monotonia só era quebrada quando encontrava alguma greta pela frente. Fiz um traçado perpendicular a esses obstáculos, evitando a possibilidade de caminhar, sem perceber, ao lado de uma greta coberta pelas nevascas dos dias anteriores. Havia três alternativas quando me aproximava de uma greta, contorná-la em sentido perpendicular, encontrar uma ponte de gelo para ultrapassá-la ou saltá-la. A primeira opção é a preferível, mas nem sempre possível, dependendo do comprimento da greta. As gretas que encontrei até o meio da tarde, de um modo geral, eram pequenas e pouco profundas, mas o grande risco que apresentavam era decorrente das péssimas condições da neve do glaciar. As bordas eram instáveis e quebradiças e, por todos os lados, já começavam a se formar os pináculos de gelo que dão origem aos penitentes. Mas, por volta das 15:00, cheguei a uma greta realmente grande e ameaçadora. Encontrei uma ponte de gelo para atravessá-la, mas que não inspirava nenhuma confiança. Arrisquei um passo nessa ponte e a mesma mostrou sua instabilidade, soltando pedaços de neve e gelo. Resolvi não me arriscar e fui buscar outro caminho, tendo que escolher entre subir ou descer para contornar a greta. Olhei para cima e vi um verdadeiro labirinto de gretas naquela direção. Para baixo, aparentemente, as chances eram melhores, mas não queria perder altitude e optei por subir. Após uns 15 minutos, por sorte, encontrei outra ponte de gelo mais sólida e consegui atravessá-la sem maiores sustos.

Continuei a subir e constatei que estava livre das gretas, que se concentravam no centro e na parte norte do glaciar. A inclinação se suavizava cada vez mais e me dei conta que me aproximava de um grande platô que, certamente, me levaria até o cume. O problema é que, enquanto eu me movia lentamente naquela sopa de neve, o apressadinho de meu relógio não queria me esperar e já havia completado mais uma volta: já eram 16:00. E o dedo-duro do altímetro acusava que ainda faltavam uns 300 m de desnível. Não é possível, pensei, o cume parece tão próximo! Ao invés de seguir o contorno mais óbvio pela aresta que formava o platô, busquei uma linha direta para o rumo onde imaginava que estaria o ponto culminante da montanha: em vão, pois isso significou afundar-me, cada vez mais, na neve fofa! Para complicar, a visibilidade começou a piorar e percebi que o cume estava sendo tomado por uma grande massa de nuvens baixas e pouco espessas. Mais abaixo o tempo estava excelente e não havia risco de que se deteriorasse, conforme os prognósticos que havia recebido para os próximos dias. Mas, à medida que subia, fui envolvido por uma espécie de neblina que me fechou totalmente a visão do cume.

A partir de então, minhas ações passaram a ser reguladas muito mais pela intuição do que pela razão. Mesmo mantendo os olhos fixos no altímetro e no relógio e fazendo cálculos mentais sobre o tempo de chegada ao cume e de retorno à minha barraca, sabia que já havia extrapolado os limites estabelecidos previamente e que era a intuição o que me conduzia adiante, mostrando-me se seria ou não capaz de concluir a subida e descer com segurança. E essa força intuitiva, por vezes, se apresentava como uma corrente dupla e antagônica, me impelindo a chegar ao cume e, ao mesmo tempo, a dar meia-volta e começar a descer.

Em uma breve parada para descanso percebi um detalhe que estava me incomodando: estava ventando! Mas não era o vento em si o motivo do incômodo e, sim, a possibilidade de que o mesmo removesse os sinais de minhas pegadas por entre a neve. Tais pegadas eram a minha “linha da vida”, garantindo minha passagem segura por entre as gretas. Se elas desaparecessem, teria que buscar novamente o caminho e a descida não seria assim tão rápida. Eram esses pensamentos, não sei se produzidos intuitivamente ou racionalmente, que me dominavam quando vislumbrei, um pouco adiante, algumas pedras que pareciam uma espécie de marco. Seria o cume? O altímetro já marcava mais de 6100 m. Como não conseguia enxergar quase nada além de uns 15 metros, não era possível dizer com certeza. Mas ao me aproximar desse suposto marco, constatei que era um falso cume e que a subida continuava levemente.

Essa experiência se repetiu pelo menos umas duas ou três vezes mais e a sensação angustiante de nunca chegar era realçada pela visibilidade quase nula. Até que alcancei uma espécie de rampa com uma subida mais forte que, finalmente, se mostrou (ou melhor, não mostrou nada, porque já não era possível enxergar além de uns 3 ou 4 metros) ser a derradeira. Agora estava em um pequeno platô com algumas pedras. Passei a buscar algum marco que me confirmasse que ali era o cume e, dando um giro de 360o, constatei que por todos os lados parecia haver descidas mais acentuadas e nenhuma subida. Enquanto a razão me dizia que finalmente havia chegado ao cume, o que parecia se confirmar pelo altímetro que já havia extrapolado a altura oficial do Marmolejo, a intuição me dizia para sair dali imediatamente. Sem possibilidade de fotografar ou filmar nada, comecei a descer o mais rápido que pude, como um fugitivo em busca de um lugar seguro.

Ao chegar ao final do platô e começar a baixar pelo glaciar propriamente dito, minhas preocupações se confirmaram e não encontrei mais minhas pegadas. Fui saltando as gretas que encontrava no caminho, valendo-me da vantagem de que, na descida, a borda oposta estava em um nível mais baixo, facilitando sua travessia. À medida que descia a visibilidade melhorava e, de repente, estava de frente para um sol cor de fogo que começava a se esconder por entre vales e montanhas, a oeste. Um espetáculo lindo e aterrador, ao mesmo tempo, já que me mostrava que, em pouco tempo, não haveria mais luz. Cheguei à depressão do glaciar já no lusco-fosco e respirei aliviado, pois dali em diante uma leve subida me levaria ao campo de penitentes onde minhas pegadas permaneciam. Bastaria contorná-lo para chegar ao Acampamento Avançado. Foi quando me lembrei de dois detalhes importantes: que minha água havia se acabado antes de chegar ao cume e que existe uma coisa chamada sede. E eu estava com muita, mas muita sede, e foi só eu relaxar e sair do estado de concentração extrema na qual eu me encontrava, ao descer pelo glaciar, para começar a sentir os efeitos da desidratação.

Continuei a caminhar e começaram a passar pela minha cabeça imagens e desejos de tudo quanto é tipo de bebida, até que alcancei os penitentes e tive a infeliz ideia de quebrar uns pedaços de gelo para colocá-los na boca. Digo que foi uma ideia infeliz porque, desidratado como estava, ao tomar essa espécie de picolé de penitente, meu estômago começou a “embrulhar” e, de repente, fiquei enjoado e pensei “ele está passando mal”. Sentei entre dois penitentes e senti um frio na espinha, e não foi por causa da superfície gelada onde me encontrava, mas por me dar conta do pensamento que me havia saído espontaneamente: “ele está passando mal”! Porque havia usado o pronome “ele” e não “eu”? Só então percebi que havia passado boa parte do dia dialogando comigo mesmo, não da forma como estamos acostumados, mas como se minha consciência visse minha pessoa como algo exterior a mim mesmo. Era algo estranhíssimo do qual eu não conseguia me libertar, eu realmente sentia uma dupla presença e a linguagem de meus pensamentos simplesmente expressava essa sensação ou percepção.

Sempre fui fascinado pelas abordagens literárias do tema do “duplo”, tão bem explorado por alguns de meus autores favoritos como Edgar Allan Poe, Dostoievsky e Jorge Luiz Borges, dentre outros, e antes de ir para a montanha estava lendo, justamente, “O homem duplicado”, de José Saramago. Será que minha cabeça estava me pregando uma peça? De qualquer modo, pensei que era hora de descansar um pouco e me ajeitei entre os penitentes. E não é que o lugar era confortável? A camada de neve fresca que ocupava o lugar e o formato da crista que ligava as duas torres de gelo lembravam uma poltrona acolchoada. Como minha roupa impermeável me isolava do frio, pude relaxar tranquilamente por quase meia hora e esquecer um pouco a sede. Teria dado até para tirar um cochilo, mas me levantei animado ao me lembrar de que havia um litro de suco de laranja me esperando em minha barraca.

Comecei a contornar o campo de penitentes e o caminho de volta me pareceu mais longo do que quando passei por ali, pela manhã. Fiz mais uma pausa para descanso no Acampamento Avançado e o diálogo comigo mesmo continuava nos mesmos moldes de antes, não conseguia me libertar de meu “duplo”. Já havia chegado na parte mais fácil da descida e não tinha mais com que me preocupar, somente a sede é que me incomodava muito. A trilha que eu havia aberto na neve continuava bem marcada e desci rapidamente até a parede inclinada, o último obstáculo antes de chegar a minha barraca. Terminei a descida, atravessei o canal de penitentes e caminhei os metros finais meio trôpego, mas contente pela possibilidade de me hidratar.

A primeira coisa que fiz foi procurar a garrafa de suco e bebê-la avidamente. Já passava da meia-noite e, só então, percebi que não havia mais neve no entorno da barraca. O calor que fez durante o dia havia derretido tudo e, para conseguir água, teria que caminhar até o glaciar para buscar neve por lá. Preferi terminar de beber o suco e descansar, deixando isso para o dia seguinte. Por sorte, não senti sede durante a noite e acordei por volta das 09:30, com o sol esquentando minha barraca.

Passei a manhã me hidratando e preparando as coisas para tomar o rumo de volta. Como não daria tempo de sair da montanha naquele mesmo dia, não havia pressa, já que dali até o Acampamento Base eu gastaria, no máximo, umas 4 ou 5 horas. Comecei a descer por volta das 13:00 e a paisagem estava totalmente diferente, já que a neve não cobria mais o caminho, revelando aspectos da rota que eu não havia percebido antes.


Meus dois últimos dias na montanha não tiveram nenhum acontecimento digno de nota, mas talvez sejam esses momentos onde “nada acontece” os melhores, onde conseguimos curtir os pequenos detalhes que, quando estamos concentrados ou sob tensão, não  podemos nos dar conta. A descida pela aresta, por exemplo, que durante a subida foi um verdadeiro martírio, agora era um passeio com direito a uma vista espetacular. Cheguei ao acampamento base pouco depois das 17:00. A temperatura durante a noite estava amena e agradável e dormi o “sono dos justos” totalmente relaxado, dando-me ao luxo de acordar, no dia seguinte, depois das 09:00 da manhã. O dia estava lindo, céu azul e ensolarado, e somente uns vinte e poucos quilômetros me separavam da civilização.

Ao descer pela quebrada percebi que o Estero Marmolejo estava mais cheio do que antes, provavelmente uma consequência do tempo quente dos dias anteriores. Como atravessei o rio ainda na parte da manhã, não encontrei muitas dificuldades, mas teria que cruzá-lo novamente na parte baixa do vale e essa detalhe era a única coisa que poderia me trazer alguma preocupação nesse dia tranquilo. Depois de algumas horas avistei o verde do Cajón de la Engorda” lá embaixo, no início da quebrada, e já comecei a sentir o gosto das cervejas que iria tomar em minha boca. Quando cheguei no início do Cajón, onde a quebrada do Estero Marmolejo se abre, peguei o telefone satelital e liguei para meu amigo Alexandre, em Santiago, avisando-o que em duas horas eu chegaria no “cabrerío” do início da trilha, onde ele havia me deixado 6 dias antes. Só havia me esquecido que ainda faltava a travessia do rio e, quando fui procurar o ponto por onde havia passado na subida, percebi que aqueles pequenos braços de água não existiam mais, tendo sido substituídos por uma única corrente caudalosa e nada convidativa.


Subi novamente a quebrada, buscando algum ponto onde o rio estivesse menos perigoso e, depois de algum tempo, encontrei um local onde o mesmo se bifurcava, com algumas pedras no meio. Pelo menos ali eu poderia dividir a travessia em duas partes, fazendo uma parada para recuperar as forças. Entrei em suas águas com botas e tudo, para não correr risco de escorregar. Ainda bem que optei por essa alternativa, porque estava difícil de suportar a força da correnteza, cansado como estava. Tomei um fôlego nas pedras, cruzei a segunda parte e pensei: “agora acabaram as dificuldades!”. Mas a coisa não poderia ser tão fácil e a descida bucólica dos últimos dois dias resolveu se transformar em algo menos monótono. Todos os afluentes pelos quais eu havia passado estavam transbordando de tão cheios, me obrigando a atravessá-los com esforço e cautela. E, por fim, quando já não havia mais nada para acontecer, começou a chover! Eu já estava com as botas e a calça molhadas e, agora, o resto do corpo começou a ficar encharcado. Meio a contragosto, parei para vestir minha jaqueta impermeável.

Finalmente, avistei os currais com as cabras: as duas horas que eu previ, inicialmente, haviam se transformado em três. Mas não havia sinal do 4x4 de meu amigo, será que ele tinha se atrasado? Chegando mais perto avistei, ao lado de um casebre, a frente de um carro com o símbolo de um Mercedes. “Será que o Alexandre veio de Mercedes até aqui?”, me perguntei, não poderia acreditar nisso. Foi quando um vulto de terno e gravata saiu atrás das cabras e veio em minha direção: era o Alexandre! Esse meu amigo é um executivo de uma multinacional e, ao receber minha ligação, interrompeu uma reunião e veio direto do trabalho, com roupa de trabalho e carro de trabalho. Ele me contou que havia acontecido um grande alude (avalanche de pedras e inundação) no Cajón del Maipo, que ficou isolado por uns dois dias, e que a estrada estava quase intransitável. E o maluco havia chegado ali de Mercedes! O abastecimento de água em Santiago havia sido interrompido por 24 horas, por conta do alude, fora o terremoto que se produziu uns dias atrás. E eu lá na montanha, sem saber nada disso. Muito mais seguro lá em cima, pensei...

Mas o mais engraçado ainda estava por vir. Chegamos em Santiago depois das 22:00 e estávamos famintos. Como o Alexandre mora em um condomínio afastado da cidade, não daria tempo de ir a sua casa para tomar um banho e sair novamente. Quando me dei conta, ele estava entrando no estacionamento do Parque Arauco para irmos jantar. Diante dos meus protestos, ele riu e comentou: “relaxa que aqui ninguém repara nessas coisas”. Como não, se os chilenos em Santiago são tão formais... E como não reparar em um sujeito de terno, acompanhado por outro vestido com roupas de montanha em pleno calor de verão, barba mal feita, calça toda suja de barro e calçando um par de crocs? Mas a fome era maior do que qualquer escrúpulo e sentamos tranquilamente em um restaurante. Ante o olhar de interrogação do garçom, apontei para o Alexandre em seu impecável terno preto e soltei um infame “É o meu segurança”! Impossível pensar em um final mais divertido...


Álbum de fotos:
Expedição ao Marmolejo (6108 m) 2013