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sexta-feira, 25 de março de 2016

Marmolejo: “a montanha invisível” - 3ª parte (2013)


Texto por: Marcelo Delvaux

Relato da ascensão realizada em janeiro de 2013.



Acordei com o “bip-bip” do relógio e, como de costume, a primeira coisa que fiz foi abrir a porta da barraca e dar uma espiadela no céu: a noite estrelada e sem ventos que se apresentou aos meus olhos ainda sonolentos era como o negativo de um dia perfeito, que se revelaria ao nascer do sol em todas as suas cores. Preparei meu desjejum, leite quente com cereais e alguns biscoitos, e comecei a me vestir. A ideia era sair antes das 05:00 para tentar chegar ao cume até as 14:00 ou 15:00, no máximo. Teria um grande desnível para vencer, cerca de 1500 m, e calculei que gastaria uma hora e meia até a entrada do glaciar, onde está o Acampamento Avançado, a uns 4900 ou 5000 m, e depois mais 7 ou 8 horas até o cume. A descida seria bem mais rápida, umas 4 horas ou pouco mais que isso e, certamente, eu estaria de volta na barraca ainda com a luz do dia.

Menos de uma hora depois de me levantar eu já estava pronto para sair. Faltava somente colocar os “mitones”, que são as luvas impermeáveis que nos protegem do frio extremo das grandes altitudes. Quando tirei as luvas de dentro da mochila, tive a sensação de estar pegando em um objeto maciço: as luvas estavam congeladas, incrível! Tentei colocá-las assim mesmo e saí da barraca para fazer um teste. Em poucos minutos minhas mãos começaram a doer com o frio e percebi que assim não seria possível, era melhor perder um tempo para descongelar as luvas do que sofrer até o dia amanhecer. Resolvido o problema, saí novamente da barraca, pronto para iniciar o tão esperado ataque ao cume do Marmolejo, montanha que, até agora, eu ainda não tinha visto a cara. Mas uma nova surpresa me esperava: a rota estava coberta com a neve fresca que caiu durante o dia anterior e o trecho que eu havia percorrido até o canal com os penitentes estava muito mais difícil do que eu poderia imaginar. Mal havia iniciado minha jornada e o progresso já era lento. O primeiro obstáculo era subir até o topo de uma “morena” e a neve profunda, acumulada entre grandes rochas, transformou uma passagem bastante simples, que eu nem havia tomado conhecimento na véspera, em um exercício de esforço e paciência.

Devo ter gasto mais do que o dobro do tempo que precisei, no dia anterior, para chegar aos penitentes e iniciar a subida do trecho íngreme que me daria acesso ao glaciar. Devido à forte inclinação, havia menos neve nessa parte e consegui acelerar um pouco. Na metade da parede amanheceu o dia e percebi, preocupado, que estava mais lento do que o previsto. Por sorte, a neve mais acima estava quase perfeita e consegui imprimir um ritmo mais forte. Não havia sinal da rota, nem totens para orientar o caminho, e fui subindo seguindo o rumo mais lógico, no sentido da aresta onde me encontrava.


Já passavam das 07:00 quando avistei um cercado de pedras, me indicando que eu estava chegando ao Acampamento Avançado. Finalmente, enxerguei um amplo glaciar com uma montanha triangular ao fundo. Lá estava o gigante Marmolejo com o seu cume, aparentemente, bem próximo. Mas sabia que essa noção de proximidade não passava de uma “ilusão de ótica”. Com uma inclinação que, raramente, passava de 35o, e mais de 1100 m de desnível para subir, havia uma grande extensão de glaciar a ser percorrido até o cume. E as condições do glaciar não pareciam nada animadoras, já que um grande campo de penitentes cobria toda sua base.


Comecei a abrir caminho por entre os penitentes em direção à parte central do glaciar, uma tarefa irritante e cansativa que me fez lembrar algumas experiências anteriores em montanhas como o Sajama, na Bolívia, ou o Nevado Ampato, no Peru. Depois de muito esforço percebi que o glaciar não era contínuo, havia uma grande descida logo à frente, uma espécie de depressão que me separava do meu alvo: a aresta que se situava à esquerda da pirâmide do cume. Havia duas alternativas principais de ascensão, ou por essa aresta à esquerda, mais ou menos situada ao norte da montanha, ou por outra aresta mais ao sul. A primeira opção seria mais direta, mas eu teria que descer a depressão atravessando uma grande extensão de penitentes. Como havia gasto uns 45 minutos para vencer um trecho ínfimo até o ponto onde me encontrava, descartei essa possibilidade que demandaria um tempo excessivo. O jeito era regressar até o Acampamento Avançado e tentar contornar os penitentes pela direita, buscando a aresta mais ao sul. Perdi mais de uma hora nessa tentativa de passar por esses obstáculos de gelo e minha intuição me dizia que o dia seria longo e exaustivo. Seria necessário subir o mais rápido possível, sempre que as condições assim o permitissem.


A ideia de contornar o glaciar pela direita foi a mais acertada. Apesar de não ter me livrado totalmente dos penitentes, pelo menos nessa parte eles tinham um tamanho menor e estavam mais espaçados, facilitando meu avanço. O problema é que a distância parecia ser muito maior por esse lado. O glaciar também estava bem diferente do que havia visto em algumas fotos, quando estava pesquisando a rota. Conforme as indicações que eu consegui obter, quase não havia gretas na rota normal e o glaciar, supostamente, terminava uns 400 m acima do Acampamento Avançado, sendo o restante do trajeto formado por “acarreos” de pedras até o cume. Mas a visão que eu tinha a minha frente era bem diferente: a montanha parecia coberta por uma neve profunda e o glaciar estava repleto de gretas em sua base e na parte central. Para buscar a aresta ao sul, inevitavelmente, seria preciso “negociar” meu caminho por entre esses abismos gelados. Olhei para o cume e, apesar de passar das 09:00, como eu estava na face oeste, o sol ainda não havia despontado, projetando uma auréola brilhante em sua crista dando-lhe um aspecto fantasmagórico.

A depressão também era mais suave nesse lado do glaciar, facilitando minha descida. Em pouco tempo minha desconfiança se confirmou: a neve estava fofa e, a cada passo, eu afundava até o joelho. O sol chegou forte depois das 10:00 e meu ganho de altitude nas últimas 3 horas havia sido mínimo, já que tive que descer para subir novamente. Faltavam, ainda, quase 1000 m de desnível até o cume e começou a fazer calor, me obrigando a hidratar-me continuamente para conseguir manter o ritmo. Eu havia levado uns 4 litros de líquidos e já temia que não seriam suficientes. A subida passou a ser lenta e monótona: era um dia perfeito, com céu azul e poucos ventos. Mas a neve profunda e instável não ajudava e era preciso ter paciência para não desistir.


As próximas horas se passaram assim, sem muitas novidades: sol forte, claridade extrema, sede, neve fofa e um altímetro que teimava em não sair do lugar. Cada vez que olhava para o relógio, constatava que havia subido bem menos do que imaginava, ou gostaria. Mas era inevitável fazer uma projeção e, quando já era quase meio-dia calculei que, no ritmo em que eu subia, e se as condições da neve permanecessem daquele jeito, chegaria ao cume por volta das 17:00. Além da esperança de haver menos neve no alto da montanha, a previsão de tempo bom para todo o dia me motivava a continuar. Também sabia que a descida seria bem mais rápida, já que encontraria a rota aberta e, tendo luz até as 21:00, pelo menos, estaria dentro de uma margem de segurança razoável.

A monotonia só era quebrada quando encontrava alguma greta pela frente. Fiz um traçado perpendicular a esses obstáculos, evitando a possibilidade de caminhar, sem perceber, ao lado de uma greta coberta pelas nevascas dos dias anteriores. Havia três alternativas quando me aproximava de uma greta, contorná-la em sentido perpendicular, encontrar uma ponte de gelo para ultrapassá-la ou saltá-la. A primeira opção é a preferível, mas nem sempre possível, dependendo do comprimento da greta. As gretas que encontrei até o meio da tarde, de um modo geral, eram pequenas e pouco profundas, mas o grande risco que apresentavam era decorrente das péssimas condições da neve do glaciar. As bordas eram instáveis e quebradiças e, por todos os lados, já começavam a se formar os pináculos de gelo que dão origem aos penitentes. Mas, por volta das 15:00, cheguei a uma greta realmente grande e ameaçadora. Encontrei uma ponte de gelo para atravessá-la, mas que não inspirava nenhuma confiança. Arrisquei um passo nessa ponte e a mesma mostrou sua instabilidade, soltando pedaços de neve e gelo. Resolvi não me arriscar e fui buscar outro caminho, tendo que escolher entre subir ou descer para contornar a greta. Olhei para cima e vi um verdadeiro labirinto de gretas naquela direção. Para baixo, aparentemente, as chances eram melhores, mas não queria perder altitude e optei por subir. Após uns 15 minutos, por sorte, encontrei outra ponte de gelo mais sólida e consegui atravessá-la sem maiores sustos.

Continuei a subir e constatei que estava livre das gretas, que se concentravam no centro e na parte norte do glaciar. A inclinação se suavizava cada vez mais e me dei conta que me aproximava de um grande platô que, certamente, me levaria até o cume. O problema é que, enquanto eu me movia lentamente naquela sopa de neve, o apressadinho de meu relógio não queria me esperar e já havia completado mais uma volta: já eram 16:00. E o dedo-duro do altímetro acusava que ainda faltavam uns 300 m de desnível. Não é possível, pensei, o cume parece tão próximo! Ao invés de seguir o contorno mais óbvio pela aresta que formava o platô, busquei uma linha direta para o rumo onde imaginava que estaria o ponto culminante da montanha: em vão, pois isso significou afundar-me, cada vez mais, na neve fofa! Para complicar, a visibilidade começou a piorar e percebi que o cume estava sendo tomado por uma grande massa de nuvens baixas e pouco espessas. Mais abaixo o tempo estava excelente e não havia risco de que se deteriorasse, conforme os prognósticos que havia recebido para os próximos dias. Mas, à medida que subia, fui envolvido por uma espécie de neblina que me fechou totalmente a visão do cume.

A partir de então, minhas ações passaram a ser reguladas muito mais pela intuição do que pela razão. Mesmo mantendo os olhos fixos no altímetro e no relógio e fazendo cálculos mentais sobre o tempo de chegada ao cume e de retorno à minha barraca, sabia que já havia extrapolado os limites estabelecidos previamente e que era a intuição o que me conduzia adiante, mostrando-me se seria ou não capaz de concluir a subida e descer com segurança. E essa força intuitiva, por vezes, se apresentava como uma corrente dupla e antagônica, me impelindo a chegar ao cume e, ao mesmo tempo, a dar meia-volta e começar a descer.

Em uma breve parada para descanso percebi um detalhe que estava me incomodando: estava ventando! Mas não era o vento em si o motivo do incômodo e, sim, a possibilidade de que o mesmo removesse os sinais de minhas pegadas por entre a neve. Tais pegadas eram a minha “linha da vida”, garantindo minha passagem segura por entre as gretas. Se elas desaparecessem, teria que buscar novamente o caminho e a descida não seria assim tão rápida. Eram esses pensamentos, não sei se produzidos intuitivamente ou racionalmente, que me dominavam quando vislumbrei, um pouco adiante, algumas pedras que pareciam uma espécie de marco. Seria o cume? O altímetro já marcava mais de 6100 m. Como não conseguia enxergar quase nada além de uns 15 metros, não era possível dizer com certeza. Mas ao me aproximar desse suposto marco, constatei que era um falso cume e que a subida continuava levemente.

Essa experiência se repetiu pelo menos umas duas ou três vezes mais e a sensação angustiante de nunca chegar era realçada pela visibilidade quase nula. Até que alcancei uma espécie de rampa com uma subida mais forte que, finalmente, se mostrou (ou melhor, não mostrou nada, porque já não era possível enxergar além de uns 3 ou 4 metros) ser a derradeira. Agora estava em um pequeno platô com algumas pedras. Passei a buscar algum marco que me confirmasse que ali era o cume e, dando um giro de 360o, constatei que por todos os lados parecia haver descidas mais acentuadas e nenhuma subida. Enquanto a razão me dizia que finalmente havia chegado ao cume, o que parecia se confirmar pelo altímetro que já havia extrapolado a altura oficial do Marmolejo, a intuição me dizia para sair dali imediatamente. Sem possibilidade de fotografar ou filmar nada, comecei a descer o mais rápido que pude, como um fugitivo em busca de um lugar seguro.

Ao chegar ao final do platô e começar a baixar pelo glaciar propriamente dito, minhas preocupações se confirmaram e não encontrei mais minhas pegadas. Fui saltando as gretas que encontrava no caminho, valendo-me da vantagem de que, na descida, a borda oposta estava em um nível mais baixo, facilitando sua travessia. À medida que descia a visibilidade melhorava e, de repente, estava de frente para um sol cor de fogo que começava a se esconder por entre vales e montanhas, a oeste. Um espetáculo lindo e aterrador, ao mesmo tempo, já que me mostrava que, em pouco tempo, não haveria mais luz. Cheguei à depressão do glaciar já no lusco-fosco e respirei aliviado, pois dali em diante uma leve subida me levaria ao campo de penitentes onde minhas pegadas permaneciam. Bastaria contorná-lo para chegar ao Acampamento Avançado. Foi quando me lembrei de dois detalhes importantes: que minha água havia se acabado antes de chegar ao cume e que existe uma coisa chamada sede. E eu estava com muita, mas muita sede, e foi só eu relaxar e sair do estado de concentração extrema na qual eu me encontrava, ao descer pelo glaciar, para começar a sentir os efeitos da desidratação.

Continuei a caminhar e começaram a passar pela minha cabeça imagens e desejos de tudo quanto é tipo de bebida, até que alcancei os penitentes e tive a infeliz ideia de quebrar uns pedaços de gelo para colocá-los na boca. Digo que foi uma ideia infeliz porque, desidratado como estava, ao tomar essa espécie de picolé de penitente, meu estômago começou a “embrulhar” e, de repente, fiquei enjoado e pensei “ele está passando mal”. Sentei entre dois penitentes e senti um frio na espinha, e não foi por causa da superfície gelada onde me encontrava, mas por me dar conta do pensamento que me havia saído espontaneamente: “ele está passando mal”! Porque havia usado o pronome “ele” e não “eu”? Só então percebi que havia passado boa parte do dia dialogando comigo mesmo, não da forma como estamos acostumados, mas como se minha consciência visse minha pessoa como algo exterior a mim mesmo. Era algo estranhíssimo do qual eu não conseguia me libertar, eu realmente sentia uma dupla presença e a linguagem de meus pensamentos simplesmente expressava essa sensação ou percepção.

Sempre fui fascinado pelas abordagens literárias do tema do “duplo”, tão bem explorado por alguns de meus autores favoritos como Edgar Allan Poe, Dostoievsky e Jorge Luiz Borges, dentre outros, e antes de ir para a montanha estava lendo, justamente, “O homem duplicado”, de José Saramago. Será que minha cabeça estava me pregando uma peça? De qualquer modo, pensei que era hora de descansar um pouco e me ajeitei entre os penitentes. E não é que o lugar era confortável? A camada de neve fresca que ocupava o lugar e o formato da crista que ligava as duas torres de gelo lembravam uma poltrona acolchoada. Como minha roupa impermeável me isolava do frio, pude relaxar tranquilamente por quase meia hora e esquecer um pouco a sede. Teria dado até para tirar um cochilo, mas me levantei animado ao me lembrar de que havia um litro de suco de laranja me esperando em minha barraca.

Comecei a contornar o campo de penitentes e o caminho de volta me pareceu mais longo do que quando passei por ali, pela manhã. Fiz mais uma pausa para descanso no Acampamento Avançado e o diálogo comigo mesmo continuava nos mesmos moldes de antes, não conseguia me libertar de meu “duplo”. Já havia chegado na parte mais fácil da descida e não tinha mais com que me preocupar, somente a sede é que me incomodava muito. A trilha que eu havia aberto na neve continuava bem marcada e desci rapidamente até a parede inclinada, o último obstáculo antes de chegar a minha barraca. Terminei a descida, atravessei o canal de penitentes e caminhei os metros finais meio trôpego, mas contente pela possibilidade de me hidratar.

A primeira coisa que fiz foi procurar a garrafa de suco e bebê-la avidamente. Já passava da meia-noite e, só então, percebi que não havia mais neve no entorno da barraca. O calor que fez durante o dia havia derretido tudo e, para conseguir água, teria que caminhar até o glaciar para buscar neve por lá. Preferi terminar de beber o suco e descansar, deixando isso para o dia seguinte. Por sorte, não senti sede durante a noite e acordei por volta das 09:30, com o sol esquentando minha barraca.

Passei a manhã me hidratando e preparando as coisas para tomar o rumo de volta. Como não daria tempo de sair da montanha naquele mesmo dia, não havia pressa, já que dali até o Acampamento Base eu gastaria, no máximo, umas 4 ou 5 horas. Comecei a descer por volta das 13:00 e a paisagem estava totalmente diferente, já que a neve não cobria mais o caminho, revelando aspectos da rota que eu não havia percebido antes.


Meus dois últimos dias na montanha não tiveram nenhum acontecimento digno de nota, mas talvez sejam esses momentos onde “nada acontece” os melhores, onde conseguimos curtir os pequenos detalhes que, quando estamos concentrados ou sob tensão, não  podemos nos dar conta. A descida pela aresta, por exemplo, que durante a subida foi um verdadeiro martírio, agora era um passeio com direito a uma vista espetacular. Cheguei ao acampamento base pouco depois das 17:00. A temperatura durante a noite estava amena e agradável e dormi o “sono dos justos” totalmente relaxado, dando-me ao luxo de acordar, no dia seguinte, depois das 09:00 da manhã. O dia estava lindo, céu azul e ensolarado, e somente uns vinte e poucos quilômetros me separavam da civilização.

Ao descer pela quebrada percebi que o Estero Marmolejo estava mais cheio do que antes, provavelmente uma consequência do tempo quente dos dias anteriores. Como atravessei o rio ainda na parte da manhã, não encontrei muitas dificuldades, mas teria que cruzá-lo novamente na parte baixa do vale e essa detalhe era a única coisa que poderia me trazer alguma preocupação nesse dia tranquilo. Depois de algumas horas avistei o verde do Cajón de la Engorda” lá embaixo, no início da quebrada, e já comecei a sentir o gosto das cervejas que iria tomar em minha boca. Quando cheguei no início do Cajón, onde a quebrada do Estero Marmolejo se abre, peguei o telefone satelital e liguei para meu amigo Alexandre, em Santiago, avisando-o que em duas horas eu chegaria no “cabrerío” do início da trilha, onde ele havia me deixado 6 dias antes. Só havia me esquecido que ainda faltava a travessia do rio e, quando fui procurar o ponto por onde havia passado na subida, percebi que aqueles pequenos braços de água não existiam mais, tendo sido substituídos por uma única corrente caudalosa e nada convidativa.


Subi novamente a quebrada, buscando algum ponto onde o rio estivesse menos perigoso e, depois de algum tempo, encontrei um local onde o mesmo se bifurcava, com algumas pedras no meio. Pelo menos ali eu poderia dividir a travessia em duas partes, fazendo uma parada para recuperar as forças. Entrei em suas águas com botas e tudo, para não correr risco de escorregar. Ainda bem que optei por essa alternativa, porque estava difícil de suportar a força da correnteza, cansado como estava. Tomei um fôlego nas pedras, cruzei a segunda parte e pensei: “agora acabaram as dificuldades!”. Mas a coisa não poderia ser tão fácil e a descida bucólica dos últimos dois dias resolveu se transformar em algo menos monótono. Todos os afluentes pelos quais eu havia passado estavam transbordando de tão cheios, me obrigando a atravessá-los com esforço e cautela. E, por fim, quando já não havia mais nada para acontecer, começou a chover! Eu já estava com as botas e a calça molhadas e, agora, o resto do corpo começou a ficar encharcado. Meio a contragosto, parei para vestir minha jaqueta impermeável.

Finalmente, avistei os currais com as cabras: as duas horas que eu previ, inicialmente, haviam se transformado em três. Mas não havia sinal do 4x4 de meu amigo, será que ele tinha se atrasado? Chegando mais perto avistei, ao lado de um casebre, a frente de um carro com o símbolo de um Mercedes. “Será que o Alexandre veio de Mercedes até aqui?”, me perguntei, não poderia acreditar nisso. Foi quando um vulto de terno e gravata saiu atrás das cabras e veio em minha direção: era o Alexandre! Esse meu amigo é um executivo de uma multinacional e, ao receber minha ligação, interrompeu uma reunião e veio direto do trabalho, com roupa de trabalho e carro de trabalho. Ele me contou que havia acontecido um grande alude (avalanche de pedras e inundação) no Cajón del Maipo, que ficou isolado por uns dois dias, e que a estrada estava quase intransitável. E o maluco havia chegado ali de Mercedes! O abastecimento de água em Santiago havia sido interrompido por 24 horas, por conta do alude, fora o terremoto que se produziu uns dias atrás. E eu lá na montanha, sem saber nada disso. Muito mais seguro lá em cima, pensei...

Mas o mais engraçado ainda estava por vir. Chegamos em Santiago depois das 22:00 e estávamos famintos. Como o Alexandre mora em um condomínio afastado da cidade, não daria tempo de ir a sua casa para tomar um banho e sair novamente. Quando me dei conta, ele estava entrando no estacionamento do Parque Arauco para irmos jantar. Diante dos meus protestos, ele riu e comentou: “relaxa que aqui ninguém repara nessas coisas”. Como não, se os chilenos em Santiago são tão formais... E como não reparar em um sujeito de terno, acompanhado por outro vestido com roupas de montanha em pleno calor de verão, barba mal feita, calça toda suja de barro e calçando um par de crocs? Mas a fome era maior do que qualquer escrúpulo e sentamos tranquilamente em um restaurante. Ante o olhar de interrogação do garçom, apontei para o Alexandre em seu impecável terno preto e soltei um infame “É o meu segurança”! Impossível pensar em um final mais divertido...


Álbum de fotos:
Expedição ao Marmolejo (6108 m) 2013

Marmolejo: “a montanha invisível” - 2ª parte (2013)


Texto por: Marcelo Delvaux

Relato da ascensão realizada em janeiro de 2013.



Chegando aos pés do gigante

Após um breve descanso comecei a subir. Já passava das 13:00 e o céu estava escuro e ameaçador, mas não havia alternativa, teria que vencer os 650 m de desnível para alcançar o passo e encontrar um lugar para acampar. Eu já havia me abrigado e trocado o boné por um gorro, pois o frio aumentava e começava a ventar mais forte. Com todo o peso que eu carregava teria, no mínimo, umas 4 horas de subida pela frente. O início até que não foi tão difícil, já que a inclinação, que ainda era suportável, era “negociada” através de zigue-zagues que suavizavam um pouco o percurso. Com aproximadamente duas horas de subida cheguei a uma área mais ou menos plana e com sinais de ser utilizada como acampamento intermediário. Foi quando começou a chover e a nevar, simultaneamente. Era uma neve úmida misturada com uma chuva forte o suficiente para me encharcar. Deu vontade de acampar ali mesmo, mas ainda estava longe do objetivo do dia e o lugar era bem desconfortável. Coloquei a roupa impermeável, respirei fundo e continuei a subir.

Desse ponto em diante o trajeto muda drasticamente, e para pior: a inclinação aumenta significativamente e os zigue-zagues praticamente desaparecem, sendo substituídos por rampas de pedras soltas e areia fofa que fazem da subida um verdadeiro martírio. As pedras estavam molhadas e começou a acumular um pouco de neve, dificultando ainda mais o que já era bastante duro. A trilha sonora ajudava a realçar o lado sinistro do cenário, com o barulho de seguidas avalanches ecoando pelos vales.

Fui ganhando terreno lentamente e percebi que estava me encaminhando para a parte mais estreita da aresta que me levaria ao passo. Eu comecei a subir à direita da aresta e, em mais uma hora de esforço extremo, a trilha passou para o lado esquerdo. As nuvens baixas sempre me davam a impressão de que estava chegando ao passo, mas era pura ilusão: o topo de uma rampa me levava a outra tão inclinada quanto à anterior. A nevasca não dava sinais de melhora e, finalmente, avistei uma passagem estreita mais acima que parecia ser o topo da aresta. Já era cinco horas da tarde e, apesar de ter mais 4 horas de luz, estava preocupado se encontraria um lugar plano para armar a barraca. Queria fazer isso o quanto antes, pois estava muito cansado e o tempo bastante feio. O ideal seria acampar próximo do passo e não ter que entrar na outra aresta, que me conduziria até o glaciar do Marmolejo, pois isso significaria novas subidas sem a certeza de quando encontraria um lugar plano. Quando alcancei a passagem que havia avistado, respirei aliviado: estava no passo. Incrível como alguém conseguiu descobrir essa brecha na montanha para cruzá-la para o outro lado! No meio das nuvens um grande abismo se anunciou na vertente oposta e percebi a trilha descendo para o norte em direção ao vale do rio Yeso. Mas o melhor de tudo foi ter avistado, uns 20 ou 30 m mais abaixo, na encosta, uma pequena plataforma. Já tinha onde colocar minha barraca.


Desci no meio das pedras cobertas de neve e alcancei a plataforma. Parecia feita sob medida, totalmente plana e do tamanho exato da barraca. As pedras me ofereciam um suporte perfeito e, rapidamente, já estava com o acampamento armado. O problema foi entrar na barraca e colocar as coisas lá dentro. Nevava e ventava bastante e foi difícil não molhar o interior. Pelo menos lá dentro estava bem quente e abrigado, é o que eu chamo de minha “ilha de conforto”, onde tenho roupas limpas e secas, um saco de dormir convidativo, comida, telefone (satelital) para falar com quem quiser e diversão (música e um livro), isolando-me das forças da natureza que imperam do lado de fora. Tirei minha toalha da mochila, sequei tudo como pude e fui providenciar a água. Buscar neve não seria problema, já que havia muitos centímetros acumulados ao redor da barraca e das pedras. Com pouco esforço, enchi um saco plástico com neve suficiente para uns 3 litros de água.

Após uma refeição liofilizada que me pareceu excelente e de me hidratar bastante, peguei o telefone satelital e resolvi ligar para a Giselle no Brasil, para tentar obter uma previsão de tempo atualizada. Estávamos na segunda-feira e o prognóstico que eu havia conseguido uns dias antes dizia que na quarta-feira haveria uma boa janela para tentar o cume, com céu aberto e ventos suaves.  A partir de quinta-feira o tempo, supostamente, permaneceria estável, mas os ventos aumentariam progressivamente. O problema seria me posicionar na montanha em um ponto adequado para poder fazer o ataque ao cume na quarta. Do jeito que estava nevando havia o risco de não conseguir desmontar o acampamento para continuar subindo, no dia seguinte. A neve acumulada também poderia ser um problema sério. Aproveitando-me do conforto tecnológico trazido pela comunicação satelital, conversei com a Giselle e ela ficou de buscar a previsão. Meia hora depois liguei novamente e ela já tinha o prognóstico em mãos: teríamos mais um dia de nevasca (era esperado mais uns 21 cm de precipitação) e, no final da tarde de terça-feira, o tempo iria melhorar, sendo que a quarta-feira seria de sol e sem ventos. Era pagar para ver! Li por algum tempo e dormi com o barulho da neve caindo no teto da barraca.

O dia amanheceu coberto por uma fina camada de nuvens que deixava, de tempos em tempos, o céu azul mostrar sua cara. Talvez a previsão de nevasca não se concretizasse, pensei otimista. Aproveitei a melhora aparente do clima para desmontar minha barraca e preparar minha mochila para subir em direção ao glaciar. Mas foi uma pequena e pouco duradoura trégua: quando coloquei a mochila nas costas, nuvens densas e baixas já tomavam conta da montanha e a trilha que subia pela aresta desaparecia envolta no branco da paisagem. Subi pelas pedras, alcancei a trilha e fui em direção da aresta. Com a visibilidade bastante prejudicada, esse trecho dava a impressão de ser bastante exposto, com alguns passos de escalada se anunciando por debaixo da neblina. Somente na volta, com o tempo aberto, pude perceber que o grau de exposição não era assim tão alto, bastando apenas certo cuidado para vencer alguns degraus de pedra que me levaram até uma área plana e com bastante neve. Se no dia anterior eu tivesse continuado a subir por mais vinte minutos, teria encontrado um lugar muito mais adequado para acampar, mas não havia como adivinhar!

Nesse ponto começou novamente a nevar e não havia nenhum sinal de trilha, já que estava tudo coberto de branco. Deixei minha mochila em uma pedra e fui investigar o caminho, encontrando os totens que me indicavam a direção a seguir. Continuei a subir e vislumbrei, à direita, quando as nuvens aos meus pés se abriam momentaneamente, alguns abismos profundos. Percebi que estava caminhando por cima dos imensos paredões de rocha da quebrada do Estero Marmolejo, pelos quais eu havia passado antes de chegar ao acampamento base. Esses paredões eram formados por várias fendas verticais de onde, ocasionalmente, se precipitavam finas cascatas de gelo. Chegando a uns 4400 m de altitude encontrei água corrente por debaixo das pedras e da neve: seguramente a nascente de um daqueles afluentes do Estero Marmolejo que eu havia cruzado no dia anterior, lá embaixo no vale, e que descia as encostas da montanha escavando essas impressionantes fendas na rocha. Nas imediações havia excelentes pontos para acampar, mas eu queria atingir um ponto mais alto, para diminuir o desnível do ataque ao cume. Quando cheguei a 4600 m encontrei outra área plana bastante abrigada atrás de uma pedra, com espaço para pelo menos duas barracas. Logo à frente uma forte subida se anunciava e desconfiei que esse talvez fosse o último local adequado para se acampar, antes de chegar ao acampamento avançado localizado na base do glaciar, a aproximadamente 5000 m.


A nevasca havia parado e resolvi deixar a mochila nesse local para investigar a área. Subi por uma morena coberta de neve e, à minha direita, surgiu um imenso campo de penitentes, que formava a parte baixa do glaciar do Marmolejo. Continuei subindo, atravessei um canal congelado por entre os penitentes e cheguei à base da parede que havia avistado de longe. Era uma subida bastante forte e íngreme e pensei que não valeria a pena levar todo o peso para cima. O ideal era acampar por ali mesmo, aproveitando o restante do dia para derreter neve, me hidratar e fazer os preparativos para tentar o cume no dia seguinte. Ainda era cedo, pouco mais de 14:00, e teria bastante tempo para descansar. Gastei uns quinze minutos para regressar onde havia deixado minha mochila e foi só pegar a barraca que começou a nevar novamente. Nevar e ventar... E como eu estava próximo do glaciar, o vento rapidamente se converteu em um “viento blanco”, me jogando pedaços de gelo que doíam como pequenas agulhas espetadas por cima da roupa. Mais uma vez tive que armar a barraca em condições precárias. Fiz tudo o mais rápido possível, tomando a precaução de deixar a barraca bem firme para resistir à ventania. Mais uma vez minha “ilha de conforto” estava montada e me meti em seu interior, para relaxar um pouco.


O restante do dia nevou muito e a neve, rapidamente, se acumulou ao redor da barraca. Se por um lado isso facilitava o trabalho de produzir água, por outro me deixava preocupado em relação às condições que eu encontraria no glaciar, já que teria que vencer 1500 m de desnível até o cume, tarefa nada fácil se houvesse muita neve fresca depositada. Por volta das 19:00 liguei para a Giselle que, após consultar a previsão do tempo, me disse que à noite realmente  iria parar de nevar e que o dia seguinte seria ensolarado e com ventos fracos. A princípio não acreditei e, enquanto fazia algumas piadinhas em relação ao clima, senti um mormaço aquecendo a barraca. Abri a porta dianteira e, para minha surpresa, o céu estava se abrindo e o sol começando a se impor. Incrível, o prognóstico da Giselle havia se confirmado enquanto eu ainda estava com ela ao telefone.

Logo depois preparei minha refeição e algo terrível aconteceu: fui ligar meu MP3 enquanto arrumava a mochila que usaria no ataque ao cume e o mesmo não funcionou. Constatei que o botão de “lock” havia emperrado. O bendito botão se movia, mas provavelmente havia se desconectado do circuito e não conseguia destravar o aparelho, que com o “lock” ativado não funciona. Ficar sem música na barraca, para mim, é pior do que ficar sem água. Interrompi os preparativos, peguei meu canivete, abri o MP3 e “passei a faca” no circuito integrado, no local onde imaginei que ficava o travamento do aparelho. E não é que funcionou, depois de várias tentativas? Terminei de separar tudo o que necessitaria no dia seguinte ao som de Victor Jara, coloquei o relógio para despertar às 03:45 e entrei no saco de dormir, sentindo não mais o barulho da chuva ou da neve, mas o leve calor do sol do fim do dia que, finalmente, havia vencido a batalha contra o mau tempo. Além, é claro, das notas musicais do MP3 ressuscitado. Mal sabia o que o dia seguinte reservaria para mim. 


Álbum de fotos:
Expedição ao Marmolejo (6108 m) 2013

Marmolejo: “a montanha invisível” - 1ª parte (2013)


Texto por: Marcelo Delvaux

Relato da ascensão realizada em janeiro de 2013.




O Marmolejo é o “seis mil” mais austral dos Andes, ou seja, é a última montanha que ultrapassa essa altitude no sul do continente. É carinhosamente apelidada de “Muy muy lejos” pelos montanhistas , devido à longa e exaustiva aproximação necessária para se chegar à sua base. As rotas mais utilizadas para a ascensão dessa montanha estão do lado chileno, havendo duas possibilidades de acesso que convergem na rota normal: pelo vale do Río del Plomo ou pelo vale do Estero Marmolejo, no Cajón del Maipo. Eu escolhi esta última opção pela maior facilidade logística, já que existe transporte público desde Santiago até as águas termais conhecidas como Baños Morales, que ficam nas proximidades do refúgio Los Valdés, um excelente ponto de apoio para o início da empreitada. 

A aproximação pelo Estero Marmolejo é a mais longa dessas duas alternativas e bastante exigente fisicamente, principalmente se o trajeto até o acampamento base for feito sem a utilização de mulas. Ambas as rotas se encontram em um passo localizado a 4243 m de altitude, que separa os dois vales, e seguem por uma aresta na direção leste que leva diretamente ao glaciar abaixo do cume. Eu optei por ir sem mulas, tanto pelo preço abusivo cobrado, quanto pela possibilidade de agregar um elemento extra ao desafio proposto de executar essa ascensão no estilo “alpino”, ou seja, montando sucessivos acampamentos sem realizar “porteos” prévios de equipamentos e suprimentos.

O Marmolejo é uma montanha tecnicamente fácil: eu subi até o cume somente com botas duplas e um par de bastões, servindo o piolet e os crampons apenas como peso extra na minha mochila. Mas seu glaciar é bastante perigoso, a despeito das informações contrárias que encontrei em muitas referências na internet, que diziam que o mesmo não continha gretas. Na verdade, o glaciar da face oeste, no lado chileno, encontra-se em nítida regressão, certamente um efeito do aquecimento global, apresentando uma neve instável e quebradiça com muitos penitentes e gretas em formação, sendo preciso bastante cuidado ao atravessá-lo sem corda. Mas, mesmo com as condições atuais do glaciar, o Marmolejo é uma montanha linda e pouco visitada, apesar de se encontrar nas proximidades de Santiago, sendo uma excelente alternativa para quem busca uma ascensão em uma área inóspita e sem a presença de multidões. Também constitui um grande desafio físico, sendo utilizada pelos chilenos no inverno como preparação para suas expedições ao Himalaia.

Aproximação “Muy muy lejos”

Eu estava planejando seguir de ônibus para Baños Morales, mas como minha ida coincidiu com o final de semana, combinei com o Alexandre, um amigo meu que mora em Santiago, de irmos juntos para aproveitarmos o sábado no Cajón del Maipo. O tempo estava bom e aparentemente estável, ensolarado e com um céu sem nuvens, apesar da previsão de nevascas na montanha para os próximos dias. À noite, no refúgio Los Valdés, o vento aumentou de intensidade, contrastando com a limpidez estrelada do famoso céu do Cajón.

No domingo pela manhã o Alexandre me levou de 4x4 até o “cabrerío”, um local de criação de cabras situado a cerca de 2200 m de altitude e a uns 5 km do refúgio, ponto de partida para a ascensão do Marmolejo e do vulcão San José. O tempo continuava bom, com um pouco de vento e, às 09:00, me despedi de meu amigo, coloquei a mochila nas costas e busquei o caminho por uma trilha que sobe uma encosta em direção ao vale de La Engorda, uma extensa planície verdejante cortada pelo Estero Marmolejo, cuja travessia constituía o principal obstáculo do dia, além dos 1400 m de desnível a ser vencido.


Logo nos primeiros minutos de caminhada a paisagem se mostrava deslumbrante, com a visão do Cerro Morado (4647 m) surgindo à esquerda, no final do vale do Estero Morado e, a oeste, as ladeiras nevadas do vulcão San José (5856 m), cujo cume norte é vizinho ao maciço do Marmolejo. Depois de aproximadamente 2 horas, após cruzar alguns pequenos afluentes, cheguei ao Estero Marmolejo que, na parte da manhã, ainda se encontrava com um baixo volume de água, dividindo-se em vários canais no ponto em que o Cajón de La Engorda se dirige para o sudeste, separando-se do vale principal. Mesmo assim foi preciso tirar as botas e calçar um par de “crocs” para fazer a travessia, tomando muito cuidado com a força da correnteza. Desse ponto em diante a paisagem começa a mudar. O deslocamento, que já era um pouco incômodo devido às muitas pedras existentes no caminho, passa a ser, prioritariamente, por trechos pedregosos e instáveis retardando o ritmo, com o vale se tornando mais estreito e as subidas mais íngremes e fortes. Após passar por uma grande rocha com uma cruz e algumas inscrições o caminho se torna realmente mais exigente e começa-se a ganhar altura com maior rapidez. Nesse ponto a trilha se afasta do rio, apesar de se manter paralela a ele, mas bem acima de seu nível. Ou seja, é a última oportunidade de se reabastecer de água antes de atingir o local conhecido como Aguas Blancas.

Quando eu estava deixando o verde do Cajón de La Engorda observei que o vale do Estero Marmolejo terminava em uma cachoeira, logo acima da pedra com a cruz. Seria esse o fim do vale? Estranho, porque sabia que a aproximação pelo vale era bastante longa. Ao subir esse trecho descobri que o vale, na verdade, possuía vários “níveis”, abrindo-se novamente acima do trecho encachoeirado. Devo ter gasto mais umas duas horas para chegar às Aguas Blancas, que marca o fim deste outro patamar. Esse é um local bastante interessante, marcado pelo encontro do Estero Marmolejo de águas esbranquiçadas, devido à quantidade de sedimentos que carrega, com outro curso de água mais pura e azulada, que surge repentinamente por debaixo de umas rochas, uma versão em miniatura do famoso encontro das águas amazônicas dos rios Negro e Solimões. Observando esse segundo córrego mais de perto, fiquei na dúvida se se tratava de uma nova nascente, como estava na carta topográfica, ou se era o próprio Estero Marmolejo que se bifurcava e corria por debaixo das pedras, tendo seus sedimentos purificados pelo filtro natural formado pelas rochas.


Aproveitei para me reabastecer de água naquele riacho cristalino e encarei a nova e forte subida que se anunciava, e que me levou para o terceiro “nível” do vale, o último e mais longo de todos. Ao fundo, dois detalhes preocupantes: um circo de montanhas que não deixava entrever nenhum passo natural por onde subir e uma espessa camada de nuvens encobrindo esses cumes elevados, mostrando que o clima lá encima não estava nada bom. O vento também já era mais forte e o céu ficava cada vez mais escuro. Eu tinha a meta de chegar ao fundo do vale, onde fica o acampamento base, aproveitando-me do fato de que a luz do dia, nessa época do ano, prolonga-se até umas 21:30. Mas com o tempo ficando cada vez mais feio, achei melhor parar no lugar mais adequado que encontrasse.

Pouco antes das 18:00 a trilha se reaproximou do Estero Marmolejo, em um ponto onde o vale é bem extenso e o rio se desdobra em vários canais. Para cruzar alguns desses canais seria preciso tirar a bota e resolvi, então, montar a barraca em sua margem, em um lugar utilizado como acampamento intermediário pelos vestígios de pedras empilhadas ali existentes. Certamente seria mais fácil atravessar o rio pela manhã, pois o volume de água aumenta progressivamente durante o dia com o calor que provoca o degelo no alto da montanha, de onde vem toda essa água. Foi uma decisão acertada, pois cerca de uma hora e meia depois começou a chover. Havia sido um dia bem pesado, carregando todo o peso pelo vale desde o “cabrerío”. Eu estava a 3300 m de altitude e havia subido uns 1100 m. Dormi tranquilo ouvindo os pingos da chuva no teto da barraca.


O dia seguinte amanheceu tão feio como o final da tarde anterior, com as nuvens mais baixas e ameaçadoras. Antes das 09:00 já estava com a mochila nas costas e com os “crocs” nos pés, para atravessar novamente o Estero Marmolejo que, a essa hora, estava bem mais tranquilo. Somente um dos canais apresentava um volume de água maior, me fazendo molhar os pés. Após essa travessia, o caminho se afasta novamente do Estero Marmolejo e segue paralelo a um grande depósito de sedimentos, junto a um pequeno córrego. A orientação é visual, mirando-se o fundo do vale e buscando os pequenos totens que indicam o melhor caminho entre as pedras. Duas horas depois observei um totem imenso no alto desse depósito de sedimentos, indício de que estava chegando a algum lugar. O acampamento base surgiu em seguida, com uma ampla área plana em meio aos escombros.

Eu continuava sem saber por onde deveria subir, no fundo do vale, em direção à aresta que me conduziria para o glaciar do Marmolejo. As nuvens espessas realçavam, ainda mais, a verticalidade daquelas paredes, formadas por grandes montanhas como o Cerro Loma Larga (5404 m) e o Cerro Cortaderas (5197 m). Continuei caminhando seguindo os totens, agora longe de qualquer curso de água e cercado por pedras desmoronadas. Uma hora mais e cheguei a outra área plana com sinais de ser utilizada, frequentemente, como acampamento. Estranho, porque, apesar de ser bem abrigado e limpo, não vi água em nenhum lugar. Nesse ponto saquei a mochila e fui buscar o caminho, pois desconfiava que estava me aproximando da tão esperada subida que me tiraria do vale do Estero Marmolejo. Finalmente localizei dois totens apontando em direção a uma grande pedra, mais acima. Olhando para o alto e percebi uma aresta bastante aérea e exposta, que supostamente me conduziria até o passo, nesse momento escondido pelas nuvens escuras que tomaram conta daquelas paragens. Eu estava saindo do acampamento base de um “seis mil”, mas até agora não tinha visto nem sinal da montanha que iria escalar. Apenas podia pressentir que havia um gigante à espreita.


Álbum de fotos:
Expedição ao Marmolejo (6108 m) 2013