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sexta-feira, 25 de março de 2016

Cerro Plata invernal (2012)

Texto por: Marcelo Delvaux

Relato da ascensão realizada em junho de 2012.


Nos Andes meridionais escalar no inverno é bem diferente do que no verão: o clima é muito mais instável e as temperaturas são consideravelmente mais baixas. Nos primeiros dias do inverno de 2012 acompanhei diariamente a previsão do tempo e, nos dias ruins, que eram bastante frequentes, o vento no cume do cerro Plata chegava a 100 km/h, com sensação térmica de -40o C, enquanto que no Aconcagua o vento era de 120 km/h no cume, com a sensação térmica a incríveis -52o C.

Cheguei a Vallecitos em uma terça-feira, no final de junho, e minha ideia era subir rápido, para aproveitar uma suposta janela de tempo bom prevista para o sábado e tentar chegar ao cume do cerro Plata (6000 m). Passei os dois primeiros dias no refúgio Mausy, localizado a uns 2900 m de altitude. Na própria terça-feira fiz uma caminhada de aclimatação subindo algumas montanhas acima de 3000 m: Andrecitos (3116 m), Arenales (3381 m), Lomas Blancas (3659 m) e dois cumes (cerro Estudiantes – 3700 m e cerro Cáucaso – 3800 m) da La Cadenita, que é a aresta que liga o Lomas Blancas ao cerro Agustín Álvares. Para a quarta-feira estava previsto um tempo bastante ruim. Mesmo assim, acordei cedo e fui até Las Veguitas (3247 m), com a intenção de subir o cerro San Bernardo (4150 m). Mas, pouco depois das 09:00, quando eu já estava a uns 3600 m começando a subida final pelo “acarreo” que leva ao cume, a previsão se confirmou, o vento aumentou muito e começou a nevar, me obrigando a voltar ao refúgio.


Nesses dois primeiros dias tive uma amostra das dificuldades de se escalar nessa região durante o inverno. O branco predominava na paisagem, contrastando com o visual árido e de pouca neve do verão. As nevascas eram constantes, o vento bem mais forte e o frio intenso, mesmo durante o dia. Logo acima do refúgio Mausy já havia bastante neve acumulada no caminho, alternando trechos de neve fofa com um gelo traiçoeiro e escorregadio e fazendo com que se gastasse o dobro do tempo para se chegar a Las Veguitas.

Na quinta-feira o céu amanheceu limpo e preparei minha mochila com a intenção de subir direto para o acampamento El Salto (4283 m). A ideia era descansar durante a sexta-feira e atacar o cume na madrugada de sábado, aproveitando a janela de tempo bom. Havia nevado bastante até uns 100 m abaixo do refúgio. Em Las Veguitas encontrei com dois montanhistas de Buenos Aires que também estavam subindo para El Salto. Chegamos a Piedra Grande (3571 m) às 14:00. Eu havia gasto mais de 4 horas até ali, sendo que, no verão, bem aclimatado, dá para fazer este trecho com carga em menos de 3 horas. Por sorte, na maior parte do caminho entre Las Veguitas e Piedra Grande a neve estava bem dura, permitindo um deslocamento rápido. Porém, a partir de Piedra Grande as condições começaram a piorar e tivemos que cruzar dois “neveros” de neve profunda, onde era preciso ter muito cuidado porque havia muitas pedras escondidas e o risco de se torcer um pé era grande.


Por volta das 16:00 chegamos na base do “acarreo” que conduz à subida final até El Salto, conhecida como Infiernillo, na verdade uma “morena” glaciar ou depósito de sedimentos, e encontramos outros dois amigos dos argentinos. Estávamos a uns 3800 m e havíamos gasto 2 horas para subir pouco mais de 200 m. O pessoal resolveu acampar ali, um lugar bastante desconfortável e exposto aos ventos. Eu resolvi continuar, com a expectativa de que, ao chegar na crista do “acarreo”, as condições da neve melhorassem. No entanto, a subida estava totalmente obstruída e encontrei o trecho de neve mais profunda até então. Em alguns pontos me afundava quase até a cintura e, ao constatar que meu progresso era extremamente lento, resolvi voltar e me juntar aos argentinos.

Quando estava procurando um lugar mais plano para colocar a barraca começou um vento fortíssimo, me impedindo de montar a mesma. O jeito foi armá-la atrás de um grande “boulder”, um local desnivelado e cheio de pedras, mas que pelo menos me oferecia uma proteção mínima contra o vento. Mesmo assim foi uma luta para montar e fixar a barraca. O vento, além de forte, trazia muita neve e, em poucos minutos, a água que estava na garrafa pendurada no lado de fora de minha mochila congelou sob os efeitos gelados da ventania. Já era quase 17:30 quando, finalmente, pude entrar na barraca e aquecer minhas mãos, que já estavam duras da batalha contra o vento. Por volta das 21:00 o vento cessou totalmente. Saí da barraca e o céu estava limpo e repleto de estrelas. Dormi confiante na previsão de tempo bom para os próximos dias.

Na sexta-feira o dia amanheceu com céu azul e uma brisa suave. Nesta época do ano amanhece tarde, entre 08:15 e 08:30. Esperamos o sol esquentar um pouco e começamos a subida em direção a El Salto, eu e os montanhistas de Buenos Aires. Logo de cara tivemos que enfrentar o trecho de neve profunda que eu havia tentado ultrapassar na véspera. Mesmo nas primeiras horas do dia a neve permanecia solta e instável, não havendo se congelado com o frio da madrugada. Gastamos mais de uma hora para abrir a rota até o alto do “acarreo”, muito esforço para avançar poucos metros. O caminho, a partir de então, vai se tornando cada vez mais íngreme até chegar ao Infiernillo (o nome já diz tudo), que é o trecho mais inclinado antes de se chegar a El Salto. Alternando trechos sem neve com outros de neve fofa, avançamos lentamente. Na parte final do Infiernillo há uma pequena travessia horizontal, antecedendo uma forte subida em curva que dá acesso ao platô onde se localiza o acampamento de El Salto. Esse ponto estava totalmente tomado pela neve, transformando a trilha fácil do verão em uma pendente de uns 45o de inclinação bastante exposta. Para complicar, a neve estava congelada e era preciso entalhar alguns degraus para subir sem os crampons. Por diversas vezes a camada de gelo da superfície se rompia e a neve mais fofa que estava embaixo, misturada com pedra e areia, cedia e desmoronava, dificultando ainda mais a subida. Com o peso da mochila era preciso ter muito cuidado para não escorregar e rolar encosta abaixo. Precisamos de quase uma hora para abrir este outro pedaço da rota e chegamos a El Salto às 15:00. Havíamos gasto umas 5 horas para vencer pouco mais de 400 m de desnível (no verão seria possível fazer esse percurso em torno de uma hora e meia).


Mas os problemas estavam só começando. Nem bem chegamos e colocamos as mochilas no chão e começou a soprar um vento furioso, na verdade um “viento blanco” que nos despejava bastante neve e pedaços de gelo, além de pequenas pedras e poeira. Tentei montar minha barraca e, após um grande esforço e muitas tentativas, consegui colocá-la de pé. Quando estava reforçando os pontos de fixação ouvi um barulho de algo se quebrando e percebi que uma das varetas havia se partido. O jeito foi colocar a barraca no chão, antes que o estrago fosse maior, e esperar uma melhora no vento (alguns dias depois constatei que a barraca estava cheia de pequenos furos, provavelmente consequência dos projéteis de gelo e pedra arremessados pelo vento).

Dois dos argentinos desistiram e desceram para o refúgio San Bernardo. Os outros dois resolveram esperar um pouco mais junto comigo, mas acabaram por desistir também, retornando para o local que havíamos acampado na véspera. Eu fiquei aguardando até as 16:30, mas o vento não dava uma trégua. Pensei em dormir dentro da barraca desmontada em uma espécie de bivaque, mas como não tinha certeza se o vento me permitiria atacar o cume essa noite, achei que o desconforto não valeria a pena. Além de tudo, o frio estava aumentando e tomei a decisão de descer.

A descida foi bem mais rápida, com a rota já aberta. Cheguei ao local do acampamento intermediário uma hora depois e encontrei os argentinos montando a barraca com dificuldade, pois o vento também era forte por ali. Não tinha vontade de passar mais uma noite desconfortável nesse local e continuei a descer. Passei por Piedra Grande quase ao anoitecer e, então, tive a ideia de voltar ao refúgio Mausy, descansar um dia e atacar o cume diretamente de lá. Na verdade, essa era uma ideia antiga, mas nunca tive a intenção de fazer isso em condições invernais, já que o desnível é imenso, mais de 3000 m, além da longa distância (uns 13 km até o cume). Mas gostei tanto dessa possibilidade que não encontrei argumentos que me convencessem a ficar em Piedra Grande. Apertei o passo e, antes das 20:30, já estava no calor do refúgio preparando um macarrão. Havia sido um dia longo e desgastante, subindo com todo peso até El Salto e descendo novamente e, para conseguir colocar minha ideia em prática, precisaria descansar bem, já que havia forçado bastante na descida para chegar o quanto antes no refúgio.

No sábado procurei acordar mais tarde e me levantei depois das 09:00 da manhã. Passei o dia dentro do refúgio lendo e procurando me alimentar e me hidratar adequadamente. A previsão era de tempo bom para o domingo e, antes de escurecer, fui para meu quarto para tentar dormir um pouco. Pouco depois chegou um guia com alguns clientes e não consegui pegar no sono como gostaria, devido ao barulho, somente dei alguns cochilos. Lá pelas onze e meia da noite me levantei, fiz um lanche rápido, troquei de roupa, peguei minha mochila e, meia-noite e quinze, saí do refúgio com o objetivo de chegar ao cume do Plata, para espanto do grupo que ainda estava acordado, tomando vinho e comemorando sei lá o que. Seria um longo dia...

A noite estava linda, com o céu estrelado e sem ventos. Subi em ritmo forte, sabendo que uma boa velocidade seria fundamental para atingir meu objetivo principal. A rota agora estava aberta até El Salto, mas não sabia sobre suas condições a partir deste ponto. Se existissem muitos trechos complicados poderia não haver tempo suficiente para chegar até o cume. Por isso apertei o passo, aproveitando a neve mais dura durante as frias horas da noite. E que noite! Chegando em Las Veguitas vislumbrei a silhueta do Vallecitos ao longe, iluminada pela fraca luz da lua crescente. Mesmo de madrugada o branco da paisagem se destacava e Las Veguitas havia se transformado em uma grande planície de gelo. Atravessei esta planície e entrei na subida que leva até Piedra Grande, uma verdadeira “autoestrada” de neve congelada. Passei direto por Piedra Grande e cheguei ao acampamento intermediário, onde pensei encontrar os argentinos, em pouco mais de duas horas e meia, menos da metade do tempo que havia gasto para subir com peso, abrindo a rota. Os argentinos não estavam mais lá, provavelmente desistiram e desceram na véspera. Eu estava sozinho na montanha e o silêncio e a sensação de solidão se fizeram mais fortes.

O trecho de neve profunda que vinha a seguir continuava em péssimas condições, retardando um pouco meu ritmo. Após vencer este obstáculo acelerei novamente até a travessia do Infiernillo, que se mostrou mais complicada do que antes. O problema era que a rota que havíamos aberto estava novamente congelada e agora a neve estava duríssima, não me permitindo talhar alguns pontos de apoio com a bota para passar com segurança. O jeito foi sacar o piolet da mochila para esse trabalho de, literalmente, quebrar o gelo, além de utilizá-lo como ferramenta de segurança em caso de uma queda. Cheguei a El Salto às 04:30 e parei rapidamente para comer alguma coisa e me hidratar. À medida que eu subia e a noite avançava, o frio também aumentava. Por isso, coloquei minha jaqueta de pena de ganso que utilizei no Cho Oyu, no Himalaia, já me preparando para um possível aumento na força do vento com a proximidade do amanhecer. Pode parecer exagero, mas subir um “seis mil” invernal nessa região requer, geralmente, a utilização de roupas e acessórios usados na escalada de um “oito mil”.

Busquei o caminho para o acampamento La Hoyada (4660 m) e fui surpreendido por um grande “nevero” que, por sorte, estava com a neve dura e perfeita para um deslocamento rápido: mais uma “autoestrada” gelada me conduzindo montanha acima. Após deixar a neve para trás procurei sinais da trilha que no verão é bastante óbvia, mas que agora apresentava poucos vestígios. Encontrei alguns totens e segui em frente, chegando a La Hoyada por volta das 06:00. Em seguida vem uma subida forte, em direção à aresta que conduz à rota normal do cerro Lomas Amarillas e a trilha, então, vai progressivamente ganhando altura margeando a encosta à esquerda até o ponto em que, abruptamente, volta a subir fortemente para chegar ao colo entre os cerros Lomas Amarillas e Vallecitos.

Porém, após a primeira subida, a trilha desapareceu e me dei conta que o final da “quebrada de Vallecitos” estava totalmente tomado pela neve. Aquele trecho corresponde ao fundo da “panela” formada por três grandes montanhas, Vallecitos (5450 m), Rincón (5369 m) e Lomas Amarillas (5141 m), com a imponente parede da face leste do Vallecitos em destaque. Meu ritmo caiu bastante, pois a neve estava bastante profunda e instável. Procurei subir pela encosta à esquerda, onde supostamente estaria a trilha, e, na medida em que subia, a neve fofa dava lugar a uma neve bem dura e placas de gelo. Apesar da dificuldade de se caminhar neste local, devido à maior inclinação e à presença de grandes blocos de pedra, achei melhor do que me afundar na neve mais abaixo. Coloquei os crampons e segui lentamente, brigando por cada metro. Este trecho me tomou muito tempo e já era mais de 08:00 quando começou a clarear e pude perceber uma tênue linha na neve onde a trilha correta se encontrava. Busquei esta linha para chegar ao ponto de subida ao colo e, por volta das 08:30, cheguei a este ponto. O acesso ao colo estava em condições piores do que o fundo do vale e a neve chegava até o joelho, em uma inclinação de uns 45o. Devo ter gasto quase uma hora para vencer um trecho ridiculamente curto e, por volta das 09:30, cheguei ao colo Lomas Amarillas – Vallecitos.
Estava preocupado com o horário. Ainda tinha uns 200 m de subida pela aresta até o outro colo que separa o Vallecitos do Plata e, de lá, mais 900 m até o cume. Como a aresta é bastante exposta, os ventos não permitem a acumulação de neve e o caminho estava fácil. Só então percebi que o tempo estava excelente, praticamente não havia vento nenhum. Esta é uma condição atípica no Cordón del Plata, principalmente no inverno, e um dos grandes problemas da ascensão ao cerro Plata é o vento fortíssimo que costuma varrer o colo Vallecitos - Plata que, por essa razão, é conhecido com o sugestivo nome de Portezuelo del Viento. Estava com sorte e minha motivação voltou a crescer. Subi a aresta rapidamente, desviando de alguns obstáculos rochosos, e só fui encontrar neve na parte final, imediatamente abaixo do colo. Este trecho se mostrou mais delicado, uma travessia em diagonal alternando neve dura e profunda que me retardou um pouco.

Cheguei ao colo Vallecitos - Plata pouco antes das 11:00 e o vento não passava de uma leve brisa, dando-me ao luxo de parar naquele local exposto para descansar um pouco, comer alguma coisa e me hidratar. Daqui em diante teria que subir muito rápido, pois não adiantava chegar ao cume e não ter tempo suficiente para descer as partes mais complicadas ainda de dia. Meu objetivo era estar de volta a La Hoyada até as 19:00, aproveitado a luz do dia para descer os dois colos. Para isso, deveria chegar ao cume até as 15:00 ou 15:30, no máximo, tendo que subir 900 m em quatro horas.



Apertei o passo novamente e comecei a subir o mais rápido que pude, levando em conta que já havia subido 2100 m em onze horas intensas. O caminho agora segue uma pendente mais suave e longa e a distância até ao cume é de quase 3,5 km. O ganho de altitude no início é lento e o lado psicológico começa a falar mais alto: é preciso ter paciência e seguir adiante. Finalmente, cheguei à subida final que termina no falso cume, um zig-zag interminável por um “acarreo” instável de pedras soltas. Para chegar ao “acarreo” é preciso atravessar a parte baixa do glaciar, onde a neve estava profunda e difícil de ser percorrida. Eu torcia para que houvesse neve no “acarreo”, deixando-o um pouco mais sólido. Porém, após o grande esforço para atravessar o glaciar, constatei que não havia neve dali para cima e comecei a subir lentamente, buscando os trechos mais firmes e as curvas mais abertas que suavizavam a inclinação. Na metade do caminho mudei de ideia e optei por subir pelo glaciar, pois o progresso pelo “acarreo” estava bastante lento e desgastante. Por sorte, a neve na parte superior do glaciar parecia em melhores condições. Coloquei novamente os crampons e retomei a subida. Minha decisão se mostrou acertada e meu ritmo aumentou consideravelmente. Quando vislumbrei os restos do helicóptero nas proximidades do falso cume me senti aliviado. Contornei pela extremidade do glaciar e subi uma pequena e última rampa de neve para chegar ao cume verdadeiro com suas cruzes. Olhei no relógio e estava exatamente no horário limite: 15:30. Havia conseguido vencer o desafio que me havia proposto, subindo quase 3100 m até o cume no inverno em pouco mais de 15 horas.



Fiquei no cume por uns quinze minutos, curtindo o visual magnífico com aquele mundo de montanhas ao meu redor repleto de gigantes como o Aconcagua e o Tupungato, além do impressionante Macizo de La Jaula com as torres do Cordón del Peine em evidência. “Quantas vidas seriam necessárias para subir todos esses cumes?”, pensei. Uma longa descida me esperava e, após descansar um pouco e registrar o momento em algumas fotografias, preparei minha mochila para tomar o caminho de volta. O montanhismo descrito dessa maneira pode parecer algo irracional ou sem sentido: 15 horas de subida e “sofrimento” para apenas 15 minutos no cume! Mas, ao contrário, vejo isso como uma metáfora repleta de significação. É com ironia que agora me vem à cabeça algumas observações do narrador anônimo das Notas do subsolo, de Dostoievski, que transcrevo aqui: “E porque os senhores estão assim tão firme e solenemente convencidos de que apenas o que é normal e positivo, ou seja, o bem-estar, é vantajoso para o homem? A razão não estará cometendo um erro quanto às vantagens? Quem sabe o homem ame não apenas o bem-estar? Quem sabe ele ame igualmente o sofrimento? Quem sabe o sofrimento é para ele tão vantajoso quanto o bem-estar?”, ou ainda, “Eu, por exemplo, naturalmente quero viver para satisfazer toda a minha capacidade de vida, e não para satisfazer apenas minha capacidade racional, ou seja, talvez a vigésima parte de toda a minha capacidade de viver. Que sabe a razão? Ela sabe apenas aquilo que conseguiu conhecer (...); já a natureza humana, esta age como um todo, com tudo o que possui, seja consciente, seja inconsciente – e, mesmo mentindo, está vivendo”.

O cume é uma analogia perfeita para a impermanência e transitoriedade das coisas do mundo e o esforço se chegar lá nos ajuda na percepção desse sentido de contingência: mal atingimos o ponto mais alto e já iniciamos a descida, ninguém consegue permanecer no topo por muito tempo e toda glória é efêmera. E a glória no montanhismo não é diferente. Infelizmente, muitos montanhistas tentam, de forma arrogante, transformar em glória perene momentos de realização pessoal, enaltecendo desproporcionalmente seus feitos. O montanhismo, porém, é um esporte sem plateia, pódio ou aplausos, e sem vencidos ou vencedores. Somente vencemos a nós mesmos superando os desafios a que nos propomos, que são definidos por nossas limitações, daí o caráter efêmero de qualquer realização: percebemos que a vitória foi sobre um insignificante limite pessoal, que não é nada se comparado à grandeza da montanha.



Desci diretamente pelo glaciar até reencontrar a rota logo abaixo do “acarreo”. Chegando na trilha tirei os crampons e tentei caminhar o mais rápido possível os quase 3 km que me levariam de volta ao colo Vallecitos – Plata. O dia continuava sem ventos e passei pelo colo sem problemas. Optei por uma descida direta para o colo Vallecitos – Lomas Blancas, tentando evitar a travessia coberta de neve da trilha. A descida desse outro colo me preocupava, devido à grande quantidade de neve acumulada, mas acabou sendo bem rápida e tranquila. Atravessei o fundo da “panela” da quebrada Vallecitos aproveitando os vestígios da rota que eu havia aberto e cheguei a La Hoyada com as últimas luzes do dia, logo depois das 19:00. Pouco depois os vestígios da trilha desapareceram e continuei, já de noite, me orientando pelo rumo. Não existe risco de se perder nesse trecho, pois basta descer a quebrada para chegar a El Salto, mas tive uma interessante sensação de “estranhamento” descendo no escuro sem referências do caminho: de repente, as montanhas a minha volta me pareceram muito mais altas e imponentes do que na véspera. Em menos de uma hora cheguei a El Salto e resolvi fazer uma parada de descanso.

Já passava das 20:00 quando reiniciei a descida. Havia bebido o que me restava de água e teria que chegar a Las Veguitas para me reidratar novamente. Até então, estava bebendo pequenos goles de água em intervalos regulares. Mas foi só a água acabar para começar uma sede quase insuportável. Minha lanterna “comedora de pilhas” também começou a apresentar uma luz mais fraca, dificultando a visualização do caminho. Cansado, sedento e enxergando mal tive que diminuir o ritmo, gastando umas 3 horas até Las Veguitas, mais do que havia gasto dois dias atrás descendo com uns 25 quilos nas costas. Aquela planície congelada parecia interminável e fantasmagórica sob a luz tênue de minha lanterna quando, finalmente, ouvi o barulho da água corrente do rio. Enchi minha garrafa, sentei em uma pedra e bebi prazerosamente um litro de água. Ao fundo, como na véspera, a lua crescente realçava os contornos brancos do Cordón del Plata. Foi preciso quase uma hora para terminar a descida até o refúgio. Cheguei lá por volta de meia-noite e meia, completando mais de 24 horas de ataque ao cume, o mais longo que já havia feito!

Álbum de fotos:
Cerro Plata (6000 m) Invernal 2012

Em busca do Mercedario: o cume, finalmente! (2010)

Texto por: Marcelo Delvaux

Relato da ascensão realizada em fevereiro de 2010.



Na temporada de 2010 resolvi voltar ao Cerro Mercedario, na Argentina, a quarta montanha mais alta dos Andes, com 6770 m de altitude, localizada ao norte do Aconcagua, na província de San Juan. Após a tentativa frustrada do ano anterior, quando fui obrigado a descer devido as nevascas e fortes ventos, resolvi adotar uma estratégia mais ousada e, por isso mesmo, mais arriscada: já conhecendo a instabilidade e imprevisibilidade do clima naquela região, a ideia seria subir o mais rápido possível, caso conseguisse uma janela de tempo bom, preferencialmente em estilo alpino, sem realização de porteios ou caminhadas de aclimatação.

Cheguei em Barreal em uma segunda-feira pouco depois do meio-dia. Olhando os picos das cordilheiras Ansilta e La Ramada, a impressão é que eles estavam com menos neve do que no ano anterior. Tal impressão se confirmou quando o Ramón, dono da pousada onde eu estava hospedado e que iria me levar de 4x4 até o refúgio da Laguna Blanca no dia seguinte, me disse que no último inverno havia nevado menos do que o normal. Após o almoço fui até o centro da vila consultar a previsão do tempo na internet e a mesma parecia promissora. Havia uma nevasca prevista para a sexta-feira, mas o final de semana prometia ter tempo bom. Preparei minha mochila visando otimizar ao máximo o peso, de modo a conseguir carregar tudo de uma única vez, sem ter que fazer porteios. Só iria partir para uma estratégia convencional de porteio e aclimatação caso não estivesse me sentindo bem o suficiente para subir direto. Para tomar esta decisão, iria monitorar meu nível de oxigênio e meus batimentos cardíacos e analisar meu apetite e as condições de minhas noites de sono.

Parti para a montanha na terça-feira de manhã. Por volta das 11:30 chegamos no refúgio da Laguna Blanca, situado a pouco mais de 3000 m. Combinei com o Ramón de me buscar ali na terça-feira seguinte. Meu objetivo neste primeiro dia era subir direto para Piedras Coloradas, a quase 3900 m, onde iria montar meu primeiro acampamento. O céu estava limpo e fazia calor, mas o vento soprava algumas vezes bem forte. Coloquei a mochila nas costas e iniciei a subida lentamente, procurando encontrar o ritmo adequado. Mesmo tendo economizado no peso, a carga que eu levava ainda era considerável, já que tinha provisões para 8 dias, além de todo equipamento de alta montanha. Este trecho inicial é tranquilo, correspondendo a uma trilha bem larga que sobe gradualmente em “zig-zag” a quebrada do rio formador da Laguna Blanca. Alguns atalhos unem as curvas do “zig-zag”, economizando uns bons metros de caminhada. Após 2 horas cheguei em Guanaquitos (3750 m), o primeiro acampamento da rota normal. Neste ponto, deve-se abandonar a trilha principal, que se dirige ao glaciar del Caballito, e seguir subindo à direita, acompanhando um outro curso de água.


Pouco acima de Guanaquitos aproveitei algumas pedras ao longo do riacho, que estava mais cheio do que no ano passado, para atravessá-lo. Após subir mais um pouco pela margem, cheguei no único local da trilha para Piedras Coloradas que oferece algum tipo de obstáculo: um trecho mais inclinado de pedras soltas ao lado do rio obriga o caminhante a subir pela encosta íngreme e desbarrancada à esquerda, para contornar as pedras e retornar ao rio mais adiante.

Cheguei em Piedras Coloradas às 16:00, com pouco mais de 4 horas de caminhada. Este é um local bastante agradável para se acampar, com água corrente em abundância e temperaturas não muito baixas à noite. Na verdade, estava relativamente quente para aquela altitude, o que explicava o grande volume de água no riacho. Mas isso não era garantia de tempo bom, o clima ali poderia mudar repentinamente. Além do mais, às vezes ventava bem forte e eu não me lembrava de ter enfrentado vento nas duas noites que havia passado neste acampamento no ano passado. Estava me sentindo incrivelmente bem, praticamente não sentia nenhum efeito da altitude. À noite meu oxigênio estava em 95% e os batimentos cardíacos abaixo de 60. Decidi, então, partir direto, no dia seguinte, para a Cuesta Blanca, uns 600 m acima.


A quarta-feira também amanheceu com tempo bom. O céu azul e o calor do sol davam mais ânimo à primeira subida forte que eu iria enfrentar nesta ascensão. Seria, porém, um dia curto, eu estimava fazer aquele trecho em umas 3 horas. Acabei gastando pouco mais de 2 horas, o que me deixou bastante otimista, confirmando que minhas condições físicas estavam excelentes. A trilha que parte de Piedras Coloradas se localiza do outro lado do riacho. Mas eu acho bem mais agradável subir pelo lado onde eu havia acampado: além do percurso ser menor, já que é uma subida mais direta, percorre-se um longo trecho cheio de pequenos cursos de água, que irão formar o riacho mais abaixo. Mais acima se chega a um local repleto de pedras em um aclive de cascalho bem fácil de caminhar, permitindo ganhar altura rapidamente. Uma guinada à esquerda conduz de volta à trilha, em um ponto onde aparecem alguns blocos de gelo na encosta. Surge, então, uma primeira subida mais íngreme e, após o reencontro com o riacho, o caminho segue durante algum tempo sua margem até a principal subida do dia: um longo “acarreo”, à esquerda. Um “acarreo” é um tipo de encosta formada por muitas pedras soltas e cascalho instável. Neste ponto é preciso estar atento aos totens de pedra para encontrar o “zig-zag” da trilha, porque, senão, é um martírio para subir.

Vencido aquele obstáculo, atravessei novamente o riacho mais acima e já pude vislumbrar o imenso anfiteatro que é a Cuesta Blanca, que tem este nome devido à neve de suas paredes. Na verdade, essa neve não passa de um grande campo de penitentes e, dependendo das condições da montanha, a subida para a parte superior da Cuesta Blanca implica na travessia deste típico obstáculo andino. Mas este ano a quantidade de penitentes era menor e, de longe, dava para observar a rota contornando o campo de penitentes, ao invés de atravessá-lo. Que boa notícia, pensei, eu odeio penitentes!


Logo no início da Cuesta Blanca, que é considerada o acampamento base do Mercedario, eu avistei uma barraca alaranjada e seus dois ocupantes, que logo vieram ao meu encontro. Eram dois poloneses, o Jerzy Zaborny e sua companheira Dorota, ou George e Dorothy, como eles traduziam seus nomes para o inglês. O Jerzy era um montanhista experiente e estava vindo do Aconcagua, estando, portanto, bastante aclimatado. Estava subindo a montanha lentamente para que a Dorota também pudesse se aclimatar. Eram gente finíssima e ficamos ali conversando, despreocupadamente. Eles me disseram que os últimos dias foram de muito vento, confirmando o que eu havia observado em Piedras Coloradas. Também falaram que havia uma grande expedição argentina mais acima, que provavelmente havia atacado o cume no dia anterior. Aliás, os argentinos e os poloneses iriam protagonizar um dos dramas vivenciados no Mercedario nesta temporada. Mas coisa pior ainda estava para acontecer, como eu descobriria depois.

Despedi-me dos poloneses, que pretendiam partir para um acampamento localizado na parte superior da Cuesta Blanca no dia seguinte, e continuei subindo, já que eu queria dormir no ponto mais alto do acampamento base. Mais adiante divisei algumas pessoas descendo pela encosta, margeando os penitentes. Provavelmente eram os argentinos. Uma das pessoas do grupo estava descendo bem rápido e acabou chegando antes de mim no local onde eu pretendia acampar. Aproximei-me lentamente e me encontrei com esta pessoa, uma simpática montanhista de San Juan. Ela me disse que seu grupo era formado por treze pessoas e que faziam parte de uma expedição organizada pelo governo da província. Estavam na montanha há mais de dez dias, mas haviam desistido, devido aos fortes ventos. Seis companheiros já tinham desistido antes e, agora, o restante do grupo estava descendo. Aos poucos, os demais integrantes foram chegando e contando sua experiência nos últimos dias. O vento era o grande vilão daquelas paragens e eu já estava convencido que teria que enfrentá-lo, caso quisesse tentar o cume.


Pelo menos tive uma boa notícia: havia água corrente na Cuesta Blanca e não seria necessário derreter neve! Fui até os penitentes com um dos argentinos e ele me mostrou um ponto onde havia uma fissura no gelo e estava correndo água. Ele era o mais velho do grupo e me disse, ironicamente, que por ser o mais velho os outros o mandavam buscar água. Revelou-me, então, que tinha um filho que havia morrido na face sul do Mercedario. Seu filho trabalhava como guia de montanha e resolveu subir pela difícil rota da face sul e descer pela rota normal. Chegando próximo ao cume, desequilibrou-se com o peso da mochila e caiu para trás, uma grande fatalidade. Mas ele me contou isto com grande serenidade, sem demonstrar nenhuma revolta ou rancor em relação à montanha. Até brincou, dizendo que seu outro filho, que também é guia, é muito mais louco e continua vivo. Isto me comoveu profundamente, me fazendo perceber como algumas pessoas conseguem superar de forma tão positiva uma perda como esta: lá estava ele, subindo pela segunda vez a montanha que havia tirado a vida de seu filho.

O pessoal gentilmente me ofereceu comida, dizendo que haviam deixado uma boa quantidade de suprimentos em dois acampamentos mais acima. Eles tinham uma carga considerável para levar embora da montanha, inclusive as coisas deixadas para trás pelos seus companheiros que haviam ido embora primeiro, e parte desta carga acabou ficando ali na base, aguardando as mulas que iriam buscá-la alguns dias depois. E foi nesta “operação limpeza” que cometeram um grande equívoco, responsável pelo drama que eu comentei mais acima: eles acabaram descendo com os equipamentos que os poloneses haviam porteado para a parte alta da Cuesta Blanca. Depois deste dia eu não vi mais os poloneses na montanha e achei estranho. Um outro argentino que eu encontraria dois dias depois, e que também estava subindo em solitário, me disse que os poloneses desceram porque não tinham mais gás. Mais estranho ainda, pois era pouco provável que o Jerzy cometesse um erro destes, calcular mal a quantidade de gás. Só quando voltei a Barreal e reencontrei os poloneses é que fiquei sabendo o que havia acontecido. Eles desceram por que ficaram sem suas roupas e equipamentos de alta montanha. Como eles não falavam nada de espanhol, eu os ajudei a localizar o pessoal em San Juan e o equívoco se resolveu: suas coisas estavam lá na cidade. Mas a montanha estava perdida para eles.

Após despedir-me, montei minha barraca e fui preparar um lanche com os queijos e salames que eles haviam deixado para mim, um luxo naquela altitude. Pouco depois, tive que preparar uma amarração para minha barraca nas pedras ao lado, tamanha era a força do vento. É, pensei, mais uma vez terei o vento como companheiro de montanha. Aliás, este tem sido meu “companheiro acidental” nos últimos anos e acho que já estou me acostumando com seu mau humor. Consolei-me olhando para os penitentes ao longe: pelo menos desta vez estou livre de vocês!



À noite aconteceu um fenômeno estranhíssimo. Estava na barraca e comecei a ouvir um barulho de água. Inicialmente, pensei que poderia ser o vento. Que nada, ao sair para ir ao “banheiro”, tinha um verdadeiro riacho correndo no declive que fica abaixo do local onde as barracas do acampamento base normalmente são armadas. Não entendi porque a água começou a descer neste horário, o mais lógico seria que isso acontecesse no meio da tarde, com o derretimento da neve proporcionado pelo sol forte. Mas aquele barulhinho de água veio em uma hora boa, na hora de dormir... E foi mais uma excelente noite de sono! Meu batimento ainda estava em torno de 60 e meu oxigênio continuava em alta, a 92%. Sinal verde para subir, no dia seguinte, diretamente para o próximo acampamento, Pirca de Indios, a cerca de 5200 m.

A manhã de quinta-feira apresentou-se, mais uma vez, ensolarada e com céu azul. Mas o vento parecia mais constante e me obrigava a caminhar com uma jaqueta. Pela frente eu tinha a subida mais difícil desta fase de aproximação, antes do ataque ao cume: a parede do anfiteatro da Cuesta Blanca, em uma trilha bastante íngreme e inclinada, com muitas pedras soltas. Gastei umas 4 horas até Pirca de Índios, onde eu pretendia montar meu último acampamento. Minha ideia era atacar o cume dali, enfrentado um desnível de mais de 1500 m. Uma das dificuldades da rota normal do Mercedario, que a torna mais exigente do que a do Aconcagua, é justamente a localização dos acampamentos avançados. Acima de Pirca de Indios existem duas possibilidades: La Hoyada (5800 m) e El Diente (6100 m). O problema é que estes locais são bastante expostos aos fortes ventos, principalmente La Hoyada, que se localiza na entrada do glaciar homônimo e é constantemente varrida pelo “viento blanco”. Ou o montanhista se expõe ao vento para encurtar o ataque ao cume, ou parte de Pirca de Indios (5200 m). Esta última opção, além do imenso desnível, também oferece como obstáculo uma grande distância a ser percorrida, bem maior do que aquela que separa o Nido de Condores do cume do Aconcagua.



Pirca de Indios tem este nome devido aos restos arqueológicos encontrados ali: pilhas de pedras remanescentes de antigos acampamentos incaicos! No Mercedario foram encontrados vestígios da presença dos incas até uma altitude de 6100 m. Eles foram os verdadeiros pioneiros do montanhismo nos Andes, sendo responsáveis pela “primeira ascensão” de muitos cumes só escalados, posteriormente, no século XX.

Antes de dormir conferi novamente minhas condições: oxigênio a 85% e batimento inferior a 70. Depois fiquei sabendo que nesta noite houve um tremor de terra na montanha. Os poloneses e o argentino que estavam mais abaixo sentiram o tremor. Eu não percebi nada, talvez já estivesse dormindo. Seria um prenúncio do forte terremoto que sacudiria o Chile alguns dias depois, já que ali estávamos bem próximos da fronteira? Isso talvez explicasse o estranho “riacho noturno” da noite anterior. Provavelmente, também deve ter acontecido um pequeno tremor naquela noite, liberando a água que se precipitou montanha abaixo.

Na sexta-feira de manhã o vento estava forte e algumas nuvens surgiram no céu. Lembrei-me da previsão de nevasca para aquele dia. Antes do meio-dia o vento melhorou e eu resolvi subir em direção a La Hoyada, para analisar as condições do trecho que eu iria percorrer de noite, durante o ataque ao cume. Novamente me sentia muito bem, tão bem que não resisti e subi em ritmo forte, gastando uma hora e meia para superar os 600 m de desnível até La Hoyada. Em condições normais eu teria subido tranquilamente, economizando energia, mas eu parecia uma pilha carregada e estava bastante motivado e feliz por estar de volta ali. Será que a montanha me daria uma trégua desta vez? Quando comecei a descer de La Hoyada uma massa considerável de nuvens começou a se acumular nas partes altas da montanha. Meu ânimo passou a alternar momentos de otimismo e pessimismo. Se o tempo fechasse de vez e começasse a nevar muito, o cenário do ano passado poderia se repetir.



Quando estava chegando de volta a Pirca de Índio vi uma pessoa subindo com uma mochila cargueira. Pensei que era o Jerzy e fui ao seu encontro, mas era um argentino chamado Jorge, outra figura “gente fina”. Após instalar sua pequena barraca de vivac, ele foi me fazer uma visita e me contou que, na semana anterior, ele havia feito uma tentativa de subir o Mercedario, mas foi forçado a descer, pois seu parceiro de escalada havia passado mal e sua barraca foi destroçada pelo vento em La Hoyada. O Jorge também era bastante experiente, tendo escalado o Daulaghiri, no Himalaia, junto com uma expedição catalã em 2003. Falei sobre minha intenção de atacar o cume dali e ele me alertou sobre a grande distância que eu teria que enfrentar. Ele preferia subir até El Diente e faria isto em um ou dois dias. Enquanto conversávamos, o vento aumentou e nos refugiamos em minha barraca. O Jorge me disse, então, que a previsão de tempo bom seria para o domingo. Como me sentia muito bem, eu estava cogitando atacar o cume nesta madrugada. Temia que a previsão de tempo bom pudesse não se concretizar e eu perdesse a oportunidade. Preparei todas as coisas para o ataque e fui dormir mais cedo. Deixaria para decidir se eu partiria ou não na própria madrugada de sábado, quando acordasse, observando as condições do vento. Meu nível de oxigênio havia subido novamente para 90% e os batimentos cardíacos continuavam baixos, inferiores a 70.

Acordei à meia-noite, quer dizer, fui acordado pelo meu companheiro, o vento. Praticamente não consegui dormir novamente, com as seguidas rajadas que sacudiam a barraca. Hoje não vai dar mais, pensei, e desliguei o despertador. Só voltei a dormir profundamente depois das 03:00, pouco antes do horário que eu havia planejado levantar. Às 05:00 da manhã acordei novamente e me deu vontade de partir. O vento continuava, não havia sinal de uma melhora significativa. Mas minha intuição dizia: “apúrate”. É interessante como, em grandes altitudes, nós temos às vezes estes vislumbres intuitivos, pelo menos comigo é assim. Acendi a lanterna, vesti minha roupa, comi meu desjejum e saí para aquela imensidão estrelada que é a noite na montanha. Sabia que não podia errar: se eu queimasse este ataque, seria pouco provável que eu pudesse recuperar minhas forças e teria que descer. Afinal de contas, iria buscar o cume da quarta montanha mais alta dos Andes com apenas quatro dias de subida!

Comecei a subir pela parede lateral do anfiteatro glacial onde Pirca de Indios está localizado, buscando os pequenos totens que marcam o caminho. O vento até que estava suportável, mas temia o que iria acontecer quando o dia amanhecesse. Não me animava nem um pouco a ideia de me deparar com o verdadeiro “furacão” do ano passado. Após o local conhecido como Pirca de Indios Superior avistei, ao longe e bem abaixo, as luzes de uma pequena vila, provavelmente Barreal. Começou a amanhecer e o sol surgiu imponente, inundando de luz montanhas e vales. E o vento começou a aumentar. Novamente, gastei cerca de uma hora e meia até La Hoyada. Chegando lá percebi um cenário totalmente diferente do dia anterior: havia nevado, conforme a previsão! E o “viento blanco” varria, impiedoso, aquele ponto exposto da montanha.



Coloquei meu goggle, uma máscara de esqui que oferece mais proteção em caso de tempestades e ventos fortes, e parti em direção ao “viento blanco”. Foi a primeira grande batalha do dia, parecia que eu estava no meio de uma forte nevasca. Só ficaria livre desta situação depois que eu subi pela rota que leva até El Diente. O Jorge havia me dito que havia um “zig-zag” bem marcado neste ponto, mas com aquele vento levantando neve e gelo, não dava para enxergar nada, apenas era possível distinguir a trilha de descida, uma longa e inclinada reta que levava diretamente até La Hoyada. Não tive alternativa, tive que subir por ali. Forte, muito forte, é o mínimo que eu posso dizer para descrever esta subida que, na verdade, não deveria jamais ser utilizada como subida. Somente consegui encontrar o “zig-zag” bem acima de La Hoyada. Neste ponto pude respirar um pouco mais aliviado, já que a rota se tornou mais fácil e o “viento blanco” havia ficado para trás.

A longa subida até El Diente foi vencida sem maiores surpresas. Devo ter gastado umas duas horas e meia neste trecho. Uma hora mais e cheguei no que considero o ponto crítico da rota normal do Mercedario: após mais de cinco horas de subida, avista-se o falso cume ainda muito longe. A rota, agora, segue pela parte superior do glaciar La Hoyada, em um trecho inclinado repleto de pedras soltas. Na medida em que se sobe, o terreno fica pior e mais instável. É uma longa travessia paralela ao glaciar que lembra, vagamente, o Gran Acarreo do Aconcagua. Qualquer deslize pode significar rolar montanha abaixo. Imagino que muitos desistem ali. Em alguns pontos, devido à forte inclinação, a neve se acumula e, ao se compactar, vai se transformando em placas de neve dura ou gelo que devem ser cruzadas em diagonal. Em uma dessas travessias a neve estava tão dura que não dava para passar fazendo degraus horizontais chutando com a ponta da bota, onde seria possível pisar com uma certa estabilidade. O jeito era calçar os crampons. O problema era que isto significava parar no meio do vento, ou seja, ficar exposto ao frio. Mas não havia alternativa. Coloquei rapidamente os crampons, atravessei a neve dura, e continuei sem descalçá-los, pois não queria parar novamente e havia outros trechos com neve mais adiante.

Depois de algumas subidas fortes, o falso cume ficou mais próximo e a rota desapareceu, confirmando minha tese que a desistência neste trecho deve ser constante, deixando poucas marcas no caminho. Eu sabia que teria que seguir em direção ao falso cume, sem subir até o topo, para então buscar o cume verdadeiro, que deste ponto ainda não era visível. Havia duas alternativas: continuar subindo à esquerda em direção ao falso cume ou subir mais à direita em uma linha mais suave. Olhei para frente e vi o glaciar subindo abruptamente, em direção ao ponto onde eu imaginava que o cume verdadeiro se localizava. Então me decidi: vou subir pelo glaciar, fazendo uma variante da rota normal.

Para chegar ao glaciar também havia duas opções: como eu estava na encosta rochosa acima do mesmo, bastaria descer à direita, mas eu não queria perder altitude. A outra opção era seguir adiante até o ponto em que a encosta se encontrava com o glaciar. Foi o que fiz e esta foi a parte mais sofrida de todas. Em vários pontos havia formações rochosas atravessando o caminho, formando grandes desníveis em direção ao glaciar. Era por isso, certamente, que a rota normal seguia em direção ao falso cume: era uma subida mais íngreme em um cascalho instável, mas sem grandes riscos. Onde eu estava havia mais perigo de uma queda, que poderia ser fatal. Além do mais, eu estava com os crampons, que resvalavam a todo momento nas rochas. Mesmo assim não me animava em parar no vento para tirá-los, já que no glaciar teria que colocá-los de novo. Foi, sem dúvida, o trecho em que mais me cansei.

Depois de muito esforço cheguei no glaciar. Para minha alegria, a neve estava bem dura, perfeita para se ganhar altitude rapidamente. Eu não tinha nem ideia de como era aquele glaciar. Olhando para cima, uma grande greta me espreitava como uma imensa boca, aberta e ameaçadora. Comecei a subir em direção ao lado direito da greta. Minha intenção era atravessar a linha da greta em um sentido perpendicular, para evitar andar na borda de uma possível parte da greta encoberta pela neve. Mas isto significava subir em linha reta e a inclinação começou a aumentar cada vez mais. Neste momento não sentia mais o vento, nem o cansaço das últimas duas horas. Novamente me senti revigorado e com uma grande energia, física e mental, para superar aquela situação. Eu era pura concentração, não sei descrever o que me passou pela mente a partir de então...

Quando já estava bem acima da greta, tomei uma diagonal para a esquerda para tentar suavizar a inclinação. O interessante quando se sobe por um glaciar com uma forte inclinação é que não dá para ver nada quando se olha para cima, apenas uma borda arredondada, é como caminhar sobre a superfície de uma bola. Quando a diagonal para a esquerda se tornou muito íngreme, inverti a direção e tomei outra diagonal para a direita. Depois de um tempo, me virei para cima e, para minha surpresa, a borda arredondada havia se transformado em uma linha reta, como se eu fosse chegar na borda de um precipício. Estaria chegando no cume? Olhei para os lados e percebi que estava mais alto que tudo ao meu redor, inclusive do falso cume, lá longe, à minha esquerda. Mais uns passos e me dei conta que não havia chegado no cume, mas em uma crista no alto do glaciar, que se precipitava diretamente em direção à face sul da montanha. Tenho a impressão que a rota da face sul termina neste mesmo lugar. Olhando para a esquerda vi o cume verdadeiro, uns trinta metros, no máximo, acima daquele ponto. Caminhei extasiado, e exausto, por aquela crista fantástica. Olhei para o sul: lá estava, imponente, o Aconcagua. Aos meus pés descortinava-se a visão dos outros gigantes da cordilheira La Ramada. Ainda não estava no cume, mas sabia que havia conseguido!




Cheguei ao lado do cume, tirei minha mochila e comecei a ensaiar algumas fotos. O vento deu uma diminuída, o que me permitiu tirar minhas luvas “mitten”. Incrível como consegui ficar uns 20 minutos ao lado do cume, sem nenhuma ansiedade em chegar até lá, tirando minhas fotos tranquilamente e apreciando a vista. Em seguida, subi os metros finais e pude curtir aquele incrível visual de 360 graus que o cume oferece. Foram, aproximadamente, oito horas e meia até lá.




Devo ter ficado mais de uma hora no cume. Como nos Andes argentinos, nesta época, escurece depois das 21:00, eu tinha bastante tempo para a descida. Comecei a descer pouco depois das 15:30 por uns “acarreos” que se tornaram terríveis após o falso cume. Até chegar na trilha da rota normal tive que enfrentar muita pedra solta em lugares que davam a impressão que iriam desmoronar, caso eu fizesse algum movimento brusco.

Antes de chegar em El Diente minha água acabou e a sede começou a me incomodar. Para descer para La Hoyada sai da rota e peguei um caminho mais direto que, em poucos metros, se transformou em mais uma descida perigosa e instável. A sede se transformou, então, em algo desesperadamente insuportável. Eu via lá embaixo todo aquele gelo do glaciar e não via a hora de chegar em minha barraca e preparar um suco. Mas a progressão era lenta, apesar de estar descendo, pois tinha que escolher bem meus passos naquele trecho íngreme.

Chegando próximo a La Hoyada não aguentei: desviei meu caminho para o glaciar. Já era final de tarde e, com o calor do sol, o gelo estava úmido e brilhante, uma tentação para quem está sedento! Por baixo do gelo era possível escutar a água correndo. Bati violentamente com meus pés nas placas de gelo, na esperança de encontrar água, mas a mesma estava em uma profundidade inalcançável por este método. O jeito era quebrar o gelo em pequenos pedaços e colocá-los na boca para derretê-los. Fiquei uns vinte minutos sentado ali, descansando e tentando me hidratar um pouco. Até que deu para enganar um pouco a sede.

Após sair de La Hoyada e reencontrar a trilha, pude finalmente relaxar, já que agora o caminho era bem mais fácil, e comecei a última grande descida até Pirca de Indios. Desci bem devagar, curtindo o visual. Mas também não dava para ir mais rápido, estava realmente bem cansado após mais de 12 horas de esforço contínuo, sem contar a parada no cume, e a sede voltou a me perturbar. Finalmente, cheguei a Pirca de Indios e o Jorge, ao ouvir meus passos, saiu de sua barraca para me cumprimentar e me entregar um litro de suco que ele havia feito para mim! Não poderia esperar nada melhor do que isso... Conversamos rapidamente sobre o cume e eu fui para minha barraca. Ainda tive que providenciar minha refeição antes de poder descansar.

No domingo me dei ao luxo de dormir até depois das 09:00. O vento não havia melhorado e, para piorar, a noite havia sido extremamente fria. Ainda bem que eu resolvi atacar o cume ontem, pensei, pois hoje teria o mesmo vento com uma temperatura mais baixa ainda. Vi que o Jorge estava preparando suas coisas para subir para El Diente. Fui até ele me despedir e desejar-lhe boa sorte. Às 11:00 da manhã já estava pronto para descer a montanha. Com um pouco de sorte poderia chegar em Barreal naquele mesmo dia.

Desci tranquilamente, curtindo a montanha. Esta é uma região dos Andes que eu gosto bastante e é incrível como, sem nenhuma razão aparente, nós nos sentimos tão bem em determinados lugares! Fiz duas paradas nos locais onde havia acampado e, por volta das 16:00, já estava no refúgio da Laguna Blanca. O desafio, agora, era conseguir um transporte para Barreal. A única alternativa era torcer para que alguma caminhonete da empresa que tem uma mina naquela região passasse pela estrada ao lado do refúgio. Meia hora depois vi uma caminhonete branca e corri para a estrada. Infelizmente, vinha no sentido contrário e ia em direção à mina. Mas o motorista me disse que ia se comunicar por rádio para o escritório da empresa, pedindo que eles chamassem o Ramón lá em Barreal.

Esperei mais umas três horas e nada. Já estava convencido que teria que passar a noite no refúgio, quando vi outra caminhonete de cor escura vindo da Laguna Blanca. Opa, as caminhonetes da mineradora são todas brancas, quem sabe não é o Ramón, falei para mim mesmo. Mas não queria comemorar antes da hora e fiquei sentando em frente ao refúgio vendo a caminhonete passar. Se for o Ramón ele vai vir até aqui, pensei. A estrada sobe por trás do refúgio e eu me virei para esta subida: se a caminhonete passasse por ali, minhas esperanças teriam sido em vão. Mas a caminhonete sumiu, não veio até o refúgio, nem fez a volta atrás do mesmo! Levantei-me e fui ver o que estava acontecendo. A caminhonete estava manobrando para, aparentemente, retornar em direção a Barreal. Corri, pensando que o motorista estava voltando. Mas a caminhonete parou e saíram três pessoas de dentro. Uma delas pulou na caçamba e começou a sacar umas mochilas cargueiras. Caminhei em sua direção e esta pessoa levantou a cabeça e exclamou assustado: “¿Marce, qué estás haciendo aquí?”. Era o Ramón. Não havia recebido a chamada de rádio prometida pelo motorista da mineradora, mas estava trazendo uma dupla de montanhistas de Buenos Aires para escalar o Mercedario.

Que sorte, comemorei, pensando que minha relação com aquela montanha terminava ali, pelo menos desta vez. Mal sabia que, naquele momento, iniciava-se o grande drama desta temporada no Mercedario. Troquei algumas palavras com os montanhistas de Buenos Aires, que planejavam ficar uma semana e meia na montanha. Eram um homem e uma mulher. Na minha empolgação, não guardei seus nomes. Alguns dias após meu retorno tive um tremendo susto, ao me deparar com a seguinte notícia: “Montanhista argentino continua desaparecido no Mercedario”. Meu sangue gelou, na hora pensei que era o Jorge. Abri a notícia e, preocupado com o Jorge, li o nome do andinista desaparecido: Javier Paduszck. Ao ler o restante do texto, que mencionava uma dupla de Buenos Aires, a “ficha caiu”: eram os montanhistas que eu havia encontrado no refúgio. Isto se confirmou quando vi a foto do Javier. Fiquei bastante triste e abalado e continuei, nos dias seguintes, ainda “ligado” à montanha, buscando na Internet alguma novidade sobre as tentativas de se encontrar o Javier pelas equipes de resgate. Infelizmente, as chances de encontrá-lo com vida eram muito remotas e o pior se confirmou alguns dias depois.

Álbum de fotos:
Expedição ao Mercedario (6770 m) 2010

Primeira tentativa de ascensão ao Cerro Mercedario (2009)


Texto por: Marcelo Delvaux

Relato da ascensão realizada em fevereiro de 2009.


Em 2009 eu tinha 10 dias livres na época do Carnaval e resolvi subir o Mercedário, uma montanha localizada ao norte do Aconcagua e que, com seus 6770 m, é a quarta mais alta dos Andes. Chegar na montanha já era meio complicado, pois requeria, no mínimo, 2 dias: seria necessário ir até Mendoza, depois para San Juan e, de lá, para uma vila chamada Barreal, que só tem dois ônibus diários, um pela manhã e outro pela noite. Depois, mais 2 horas em um 4x4 para chegar até o refúgio, localizado a 3000 m. Considerando-se que voltaria ao Brasil depois, a ideia era tentar subir bem rápido, em 6 ou 8 dias, no máximo, reservando outros 2 dias para o retorno. O principal fator que poderia atrapalhar seria o clima pois, caso estivesse ruim, não poderia ficar muito tempo esperando.

Eu cheguei no refúgio da Laguna Blanca (3000 m), ponto de partida para a subida ao Mercedario, em um domingo ensolarado, com céu azul e sem ventos. O tempo permaneceu assim por 2 dias, até eu montar o acampamento base a 3900 m.  


Já estava preocupado até quando o tempo bom iria durar, pois o clima no Mercedario é tão instável quanto no Aconcagua. No terceiro dia, quando fui fazer o primeiro porteio para estabelecer o acampamento avançado em Pirca de Indios, o tempo mudou e começou a nevar. No quarto dia, quando me mudei do acampamento base para o acampamento avançado, a 5200 m, tive que montar minha barraca debaixo de nevasca. Mas ainda tinha 4 dias pela frente para o tempo melhorar...


Foram 4 dias preso na barraca, nevando quase sem parar. De vez em quando precisava sair para afastar a neve com o piolet, pois ela já estava comprimindo a barraca. Eu tive que "racionar" o único livro que eu tinha em mãos, o clássico "No ar rarefeito", estabelecendo o número de páginas que poderia ler por dia, para não ficar sem nada para fazer (além disso, eu ouvia música e derretia neve para fazer água).

No terceiro dia de minha "prisão domiciliar" o tempo começou a esquentar, apesar de não parar de nevar. Eu interpretei isso como uma possibilidade de mudança de tempo e resolvi me preparar para um ataque ao cume na madrugada. Acordei às duas e meia da manhã e estava nevando. Cochilei mais uma hora e olhei para fora novamente: havia algumas estrelas no céu! Então, resolvi partir para cima. Quatro e pouco da madrugada saí. A neve acumulada chegava até o joelho e, com muito esforço, subi pela encosta nevada, até que percebi que havia alguma coisa estranha. Era a visibilidade que estava cada vez pior. Ao apagar a lanterna para enxergar a silhueta de umas rochas no alto percebi que não dava para ver mais nada: uma nova tempestade estava se formando! Desci rapidamente e, quando cheguei na parte baixa, o vento e a neve que caía já haviam apagado minhas pegadas e não era possível enxergar mais do que 3 ou 4 metros. Lembrei-me do episódio do livro "No ar rarefeito", onde as pessoas passaram a noite ao relento no colo sul do Everest, a poucos metros das barracas, debaixo de uma tempestade. Mas eu havia me prevenido e ligado meu GPS antes de sair, o que me permitiu localizá-la sem problemas.


Eu tinha somente mais um dia para o tempo melhorar, já que no dia seguinte teria que descer. Meu quarto dia no acampamento avançado começou ainda mais quente que o anterior. Parecia que a camada de nuvens estava cada vez mais fina, refletindo o calor do sol em cima da neve. Aconteceu, então, um impressionante fenômeno de inversão térmica A temperatura começou a aumentar após o meio-dia: estava 32 graus dentro da barraca; de repente passou para 36, 38, 40 graus! E nevando lá fora. Não dava para sair, o jeito era tirar a camisa e curtir o calor. Aproveitei para tomar um sorvete liofilizado que eu havia levado. Mas, apesar disso, não parava de nevar...

O tempo só abriu às 18:00, desta vez para valer. O problema é que não haveria tempo para a neve acumulada derreter. Eu sabia que teria neve pelo joelho dali até o cume. Mas iria tentar assim mesmo. Outra preocupação era com o vento. Depois de vários dias de tempo ruim, geralmente forma-se uma zona de baixa pressão que traz ventos fortes.

Acordei às 3 da madrugada e estava bastante frio, por isso resolvi ficar mais um tempo na barraca e sair um pouco mais tarde, para ficar menos tempo exposto às baixas temperaturas. Mas às 03:30 não resisti: coloquei a cabeça para fora da barraca e vi um tapete de estrelas no céu. Aparentemente, não estava ventando muito. Vesti-me rapidamente, tomei meu café da manhã, cereais com leite quente, biscoitos e frutas secas e, pouco depois das 4 horas, parti para minha última oportunidade de ataque ao cume.

Mais uma vez subi com neve até os joelhos. Não havia mais rota definida para subir a montanha, o jeito era fazer um ziguezague e procurar alguns lugares onde havia um pouco de cascalho misturado à neve, que congelava e formava uma camada de gelo menos fofa. Apesar do tempo aberto, a noite estava escura. Como estava sozinho na montanha e a neve cobriu tudo, tinha que descobrir a rota por conta própria. Alcancei uma crista e comecei a subir mais um lance de neve extremamente fofa, até os joelhos. Percebi que o vento estava cada vez mais forte, mas até então estava suportável e eu estava muito bem abrigado.

Ao amanhecer alcancei outra aresta, próximo de um local conhecido como La Hoyada. Já estava a mais de 5800 m e ainda teria uns 900 m para o cume. Foi quando eu peguei o pior vento de minha vida, nunca vi nada parecido. Estava em um local bem exposto e o vento soprava para fora da montanha. A neve fofa converteu-se em uma vantagem, pois me permitia ficar imóvel para suportar as rajadas. Percebi que, se soltasse os bastões, eles seriam carregados. O barulho do vento era realmente assustador, parecia um grito. De repente, algo inconcebível aconteceu: o vento arrancou meu gorro junto com minha lanterna. O gorro estava apertado em minha cabeça e eu estava, justamente, reclamando disso. Mesmo assim o vento o arrancou, debaixo do capuz de minha jaqueta. Por sorte, a lanterna caiu na neve e consegui recuperá-la. O gorro se foi...


Ainda tentei subir mais alguns metros, mas vi que seria impossível enfrentar aquele vento. Como o vento soprava para fora da montanha, até para descer estava difícil. Eu jogava meu corpo para frente e ficava parado, era como se tivesse alguém me sustentando no ar. O pior é que eu não podia largar os bastões ou tirar as luvas para pegar meus óculos de neve, sob o risco de saírem voando. Já havia amanhecido e a claridade estava me incomodando muito. Com muito custo comecei a descer e só depois de bastante tempo é que consegui, já na parte baixa, sentar e colocar os óculos. Cheguei na barraca e tentei cochilar um pouco, mas o vento não me deixava dormir. Eu olhava para a crista da montanha e via o "viento blanco" em ação, levantando neve e gelo a muitos metros de altura. Quando vi que seria impossível dormir, abri os olhos e percebi que havia uma névoa dentro da barraca. Na verdade, era minha vista que havia sido afetada pelo vento e pela claridade, durante o período que fiquei sem os óculos. Fiquei usando óculos dentro da barraca e meus olhos só foram melhorar umas duas horas depois. Resolvi descer a montanha neste mesmo dia e, às seis horas da tarde, cheguei ao refúgio na Laguna Blanca.

Mesmo sem ter feito cume foi uma experiência fantástica. Fiquei 8 dias em uma montanha imensa, absolutamente sozinho, tendo que descobrir toda a rota, que se encontrava coberta pela neve, por minha conta. Voltei fascinado com a região. O Mercedario fica em uma cordilheira chamada La Ramada, que possui outros três picos com mais de 6000 m. Ao lado desta cordilheira está outra, chamada Ansilta, com vários picos acima de 5000 m. É uma região muito pouco explorada com inúmeras possibilidades de ascensões, inclusive para a abertura de novas rotas. Barreal, por sua vez, é uma vila bastante agradável, situada a 1700 m de altitude. Lá é bastante quente no verão e é possível intercalar as escaladas com um descanso em alguma pousada, curtindo o calor em uma piscina. Tem tudo para ser tornar um "point" de alta montanha. Eu recomendo muito!

Álbum de fotos:
Expedição ao Mercedario (6770 m) 2009